Fair Play

E então, no meio de tanta gente, um convite que pode ser só para ela. Música, bebida, fumaça de cigarro, conversas entusiasmadas. Habitat natural de artistas e boêmios. E aquele comentário. Um convite geral ou pessoal? Como saber? Como entender as sutilezas daquele momento? Parece que sim, mas pode ser que não. Vale a pena arriscar? Vale a pena prolongar o tempo dessa dúvida? Por quanto tempo deixar o prazer de esperar que sim não se tornar a angústia de temer que não?

O prazer de imaginar o sim. O que pode ser. Como pode ser. Se pode ser. Se for de uma maneira será bom. Se for de outra maneira, será melhor. Se não for, decepção, claro. O prazer dura enquanto a ilusão durar.

Lembra do abraço apertado na hora do encontro pouco antes.

Lembra do sorriso quando a viu.

Lembra das palavras exatas: “sabia que você viria”.

No meio de várias pessoas, isso vai acontecendo. Como se não fosse nada. Como se não fosse especial. E não era especial até aquele momento. Até o momento em que percebeu que poderia ser especial.

E percebeu um sorriso bobo em seu rosto. Não esperava por isso. Não foi uma atração imediata. Não sabia sequer se era real.

Mas agora existe. Agora quer que exista.

Quer prolongar esse momento de talvezes. De cumplicidades implícitas. De quereres indefiníveis em meio à música alta, às vozes ao redor, às bebidas e cigarros circulando que a envolvem nesse clima de sedução cinematográfica, de possibilidade tangível.

Vontade dançar. Vontade chegar de novo para ser abraçada de novo agora com a consciência avaliativa desperta.

Vontade dançar.

Não é tomada pela angústia, mas pela vontade de que o prazer seja maior.

Vontade dançar.

Levanta em câmera lenta. Toma consciência do sorriso bobo em seu rosto. E o chama. O momento é íntimo demais para um nome completo, então usa apenas o diminutivo do nome.

Um outro sorriso bobo se volta em sua direção, lentamente.