Um pouco de Paris, Texas e Fake Plastic Trees

Toda história tem uma curva dramática, tem um começo, meio, e, principalmente um fim.

Amava o som da sua voz, hoje ela soa tão fraca. Você virou memória, resquício de memória. Você não sabe o quanto sinto a sua falta, o quanto a nossa mãe sente a sua falta e o quanto me culpo por ter me afastado de você. De certo que é normal, irmãos brigarem e não se darem bem, mas, você roubou a esperança de uma garotinha que cresceu por si só, forte na pele. Você se tornou um covarde, não conseguiu aguentar a barra e desistiu. Eu o admirava. Quantas vezes nossa mãe nos comparava, eu dizia que não, pelo visto ela está certa. Agora, esse sentimento de medo se apoderou de mim, vivo lutando contra ele todos os dias. Acho que foi em 1997 quando assistir com você “Paris, Texas”. Aquela cena ficou gravada na minha mente. Um belíssimo deserto que se descortina diante de um homem de calça, paletó, e um velho boné na cabeça. Ele pára e observa em volta. Uma águia pousa e o observa. Hoje eu sou aquele homem naquela travessia inominável. Não lembro ao certo, porque já se passaram semanas. O sonho. E você, nove meses. Veio assim do nada. À tona quando ouvir Fake Plastic Trees no repeat freneticamente. Era fim de tarde. Solstício de inverno, o sol desaparecia lentamente por entre os prédios com um brilho pré-histórico de tão imperial que era. Através da janela do ônibus se via a cidade gigantesca. Buzinaço e rugidos de motor. Engarrafamento. Pessoas caminhando nas principais ruas de um lado para o outro feito fantasma, desconhecidos pra mim enquanto eu brincava de adivinhação na tentativa de ler os seus pensamentos para fugir dos meus “Day time night time night time day time we do it all at the same time”, não é uma explicação simples quando vem acompanhada por uma dose de solidão enquanto algumas pessoas deslizam em um mundo de sonhos. Ao contrário delas, eu vejo minha própria sepultura. Foi quando ajeitei os fones de ouvidos. Eu vi. A moça. O cobrador. A moça vestia uma blusa vermelha, conversava e ria no celular com seus trejeitos sutis. O cobrador olhava pra fora da janela orientando o motorista na tentativa de estacionar, ele parecia relutante em seguir suas orientações. Éramos os únicos ali dentro. Dentro daquele espaço metalizado, praticamente uma carcaça de alumínio. Aqueles ônibus sanfonados me assustam. Nunca sento na parte traseira, imagino ele se repartindo ao meio… O cobrador gritou alto e olhei em sua direção. Um carro veio colidindo contra nós, naquele instante vi lobos correndo pela avenida, eles estavam fugindo. Eu estava imóvel diante deles. Não me sentia perdida naquele momento como se tivesse perdido algo, mas não estava com medo porque ia morrer de qualquer jeito, quando morremos num sonhos, significa que estamos despertando dele. Olhei ao meu redor, prestei atenção no rugido do motor sendo desligado. As portas se abrirão. A moça de vermelho desceu. Olhou pra mim e sorriu. Algumas vezes você sentiu aquela sensação de estar flutuando vendo o mundo abaixo de você? Sob as suas asas? Eu? Apenas desci do ônibus seguindo o meu caminho.