Na pele dos outros é refresco

Até o ano passado eu fui a cliente ideal dos planos de saúde. Paguei sempre minha mensalidade em dia e praticamente nunca usei os serviços, com exceção das consultas de rotina no clínico geral e na ginecologista. Meu parto foi cesárea e nem eu nem meu bebê tivemos qualquer intercorrência.

Este ano, no entanto, tive vários problemas de saúde, a começar por uma dor insuportável nas costas e dificuldades para dormir. Então me tornei uma cliente bastante cara, que usa o direito de fazer exames caros e muitas consultas médicas com inúmeros profissionais.

No entanto, plano de saúde é assim. É como seguro. Você paga na esperança de poder contar com ele numa emergência, numa situação fora do comum. Qual não foi minha surpresa ao descobrir que, doente, não podia contar com isso?

Não, porque os médicos do plano simplesmente não resolveram os meus problemas e eu tive que recorrer a três profissionais cujo trabalho paguei diretamente com valores que ficaram entre R$ 250 a R$ 450 a consulta. Um deles, inclusive, é credenciado do plano, mas não tem agenda para atender os pacientes dele. Só os que pagam particular.

Isso apesar da legislação que rege a saúde privada no país ser bastante dura e tentar proteger os clientes das operadoras.

A impossibilidade de usar a cobertura pela qual paguei durante anos não foi novidade para mim. Há dez anos, quando minha mãe teve uma doença auto-imune, meus pais passaram pela mesma coisa. O único médico especializado na doença dela em Curitiba só a aceitou como paciente depois que pagamos em dinheiro pelas consultas.

O serviço de home care, que poupava minha mãe das temíveis infecções hospitalares, foi suspenso depois de 30 dias, deixando meu pai com uma fatura altíssima para pagar ou a possibilidade de condenar a esposa a uma vida mais curta por estar exposta a mais riscos numa cama de hospital.

Mas nós todos somos classe média. A gente aperta daqui, puxa de lá e consegue dar conta dessas emergências.

E quem não consegue?

Semana passada terminei de ler Evicted, do Matthew Desmond, que discute a indústria da exploração imobiliária e o efeito disso sobre os mais pobres. Um dos personagens do livro é uma mãe solteira com três filhos que perde a casa porque deixou de pagar US$ 100 dólares no aluguel para ajudar no enterro de uma irmã. Sem ter onde morar, a mulher ficou em abrigos e aceitou pagar caro por casas sem condições de habitação. Também abriu mão de chamar a polícia e de pedir reparos na moradia com medo de voltar a ser despejada.

A tese de Desmond é que o sistema pune os mais pobres por marcá-los como mal pagadores e excluí-los dos projetos de moradia popular. E com isso os expõe a mais violência, a maiores dificuldades para educar os filhos e mais problemas de saúde (os filhos da personagem precisam mudar de escola inúmeras vezes por causa das mudanças e têm dificuldades para se enturmar).

No Brasil, o sistema tributário arranca o sangue de quem já ganha muito pouco. Segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), 79% da população que tem renda até 3 salários mínimos contribui com 53% da arrecadação tributária.

É justamente essa população que depende mais dos serviços públicos como escolas e postos de saúde. Também é quem recebe os serviços mais deficientes, escolas com pior qualidade e cortes sistemáticos de verbas.

No entanto, a classe média não é totalmente imune ao sucateamento dos serviços públicos. É graças ao sistema público de creches que as mães profissionais como eu podem contar com mão de obra barata para cuidar de nossos filhos. Também é o SUS que dá conta do atendimento público de saúde a esses profissionais sem que essa conta seja cobrada de nós, patrões.

Isso sem falar no fato de como o Estado paga pela formação de professores, mesmo aqueles que vão para o sistema privado de ensino. Foi o Fies e o Prouni que financiaram a expansão do ensino superior particular, abrindo vagas de emprego para profissionais qualificados e vagas de graduação para estudantes de todas as classes sociais.

O SUS dá conta de fornecer atendimento médico para milhares de pessoas, muitas das quais adoecem por más condições de trabalho e de vida, sem que esse custo seja cobrado dos grandes empresários, aqueles mesmos que reclamam da alta carga tributária brasileira, mesmo sabendo que não são eles que pagam a maior parte dessa conta.

Não existe economia em saúde. Como eu, você pode passar boa parte da vida sem ter grandes despesas na área. Mas quando a conta vem, ela é alta e não pode ser adiada. Cortar verbas nesse setor é um desastre social. É também uma péssima estratégia econômica.

No Brasil há uma falsa crença de que os pobres mamam nas tetas do Estado, em especial por conta do Bolsa Família, programa do governo federal que garante renda mínima para quem vive abaixo da linha da pobreza.

No entanto, esse pensamento não leva em consideração que boa parte desse dinheiro volta para o governo na forma de tributos cobrados em produtos de primeira necessidade, como comida, produtos de higiene e roupas. Além disso, os pouco mais de R$ 100 pagos a famílias miseráveis do país reduz atendimentos nos postos de saúde, mantém crianças na escola e evita problemas com desnutrição, o que gera economia pro Estado.

No livro Evicted, o despejo joga uma mãe na rua, atrapalha a vida escolar dos filhos e prejudica a chance dela arranjar emprego e se organizar. No Brasil, a miséria tem efeito semelhante'. Crianças pobres tem mais chances de terem dificuldades de aprendizagem, atrasos no desenvolvimento e estarem sujeitos à violência física, psicológica e sexual. O ciclo perverso continua de geração em geração, condenando famílias inteiras à violência e à miséria.

Por aqui ainda temos como agravante o abismo que existe entre pobres e ricos. Falta empatia com as dificuldades de ser pobre num país como o nosso.

Algo assim fica evidente como na entrevista da esposa do prefeito eleito de São Paulo, Bia Doria, à Folha. “Eu me dou muito bem com pessoas mais humildes. Às vezes é só um aperto de mão, às vezes elas querem um abraço. É tão pouco o que elas querem.”, declarou a futura primeira-dama, que esquece que pobre é também cidadão, não só destinatário da bondade da nobreza.

Essa é uma elite que não vê mal nenhum em tirar dinheiro da educação e da saúde e que acredita que política social é distribuir cobertor no inverno.

No entanto, essa política não vai prejudicar só os pobres. Vai apertar ainda mais o cinto da classe média e fazer todo mundo pagar para que uma parcela pequena da população continue onde está.

A falta de empatia da classe média com quem é miserável a levará a sofrer também. Um dia, assim como eu deixei de ser um adulto produtivo e cliente ideal dos planos de saúde, você também irá precisar cruzar essa linha tênue entre o útil e o estorvo.

Quando isso acontecer talvez você finalmente veja que contingenciar verba na saúde e na educação não é economia. Não é boa gestão. É só canalhice mesmo.