Para ler antes de dizer que não é feminista

Sabe, ninguém é obrigado a militar por causa nenhuma. Vivemos numa democracia (por enquanto) e as pessoas são livres para pensar por conta própria e escolherem seu próprio caminho. Mas essa liberdade vem com a responsabilidade de se informar para tomar decisões embasadas em algo mais que só impulso e senso comum.

Se você é mulher deve ter percebido que tem feminista para tudo quanto é lado ultimamente, não? Aquela tua amiga que parecia tão normal, a cunhada, a professora, a médica. Vocês estão falando sobre marca de cosmético e pá, a moça emenda que desde que virou feminista fez isso ou aquilo.

Outra espécie que tem se disseminado é a da mulher que é "contra as feministas". Que vive postando nas redes sociais exemplos de como essas mulheres são loucas, horríveis e vão causar a danação eterna de quem tem peito e vagina (pepeka, né? Porque mulher de respeito não chama vagina de vagina).

Tem até quem tenha sido curada do feminismo #ironia

Mas afinal, estamos divididas entre feministas e femininas? Não sou estudiosa do feminismo, nem sou militante, mas aprendi algumas coisas nos últimos anos que talvez sejam úteis para vocês.

A primeira delas é que movimentos sociais são plurais (e o feminismo é um movimento social). Ou seja, não dá para colocar todas as feministas num pacote só porque trata-se de um grupo diverso, inclusive do ponto de vista de posição política. É comum identificarem o feminismo como uma pauta de esquerda, no entanto uma das bandeiras do movimento é, na concepção, liberal: a ideia de que o Estado não deve legislar sobre o corpo alheio (e portanto não pode impedir o aborto, por exemplo).

Ser feminista não é ser automaticamente de esquerda, ou petista, ou vegana, ou odiar homens. Às vezes o feminismo parece ser uma pauta da esquerda porque muitos grupos de esquerda têm atuação forte em discussões e eventos pela causa. Mas isso acontece justamente porque, ao aderir ao movimento social ou ideológico, as mulheres se sentem em segundo plano e acabam por se unir num movimento dentro do movimento, como forma de dar mais força às pautas de gênero.

Mas existe algo que unifica o movimento? Sim, a ideia de que homens e mulheres não são iguais, mas têm direito à igualdade. Explico: o princípio da igualdade (que está na nossa Constituição, que não é um documento comunista) não diz que somos iguais, mas que devemos ser tratados como iguais perante a lei, o Estado e a comunidade.

"Mas eu sempre fui tratada como igual a vida toda", você deve estar pensando. Veja, nós vivemos numa comunidade. Muito embora tenhamos demandas individuais, o interesse coletivo tem que ficar acima do pessoal. Isso significa que não dá para a gente julgar uma realidade social só a partir da nossa experiência porque ela é, por definição, limitada.

Outro problema da percepção individual da realidade é que muitas coisas que temos como normal hoje são consequência de lutas das quais não participamos. Por exemplo: você votou nas últimas eleições, não? Se não votou, foi por escolha ou circunstância própria, não porque você não pode votar. Mas nem sempre foi assim. O direito das mulheres votarem só foi conquistado depois que se exigiu isso e hoje nós nem paramos para pensar quando votamos porque nos parece natural, mas só é assim graças à luta de outras.

Antes da luta de outras épocas as mulheres não podiam se divorciar, nem ter propriedade, mas hoje a gente tem nossos carros e casas e nem para pra pensar nisso.

Mas se já votamos, pra que continuar a lutar? Porque votamos mas ainda não temos as mesmas condições de sermos votadas. A população brasileira tem 51,4% de mulheres, mas a quantidade de candidatas fica em torno de 31%. Nas eleições de 2016, a participação das mulheres ficou em 32% na disputa por cargos no parlamento e 12% na eleição para prefeito, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral.

"Ah, mas a mulher tem um perfil mais de cuidar do que de gerir". Será mesmo? Sabe quando alguém supõe que você é de um jeito por causa de um detalhe? Não é chato? E quando se supõe algo sobre um grupo inteiro de pessoas. Será justo isso?

Pense nas mulheres que você conhece. São todas iguais? Todas querem ser mães, todas criam os filhos igual, todas gostam das mesmas músicas, filmes? Atuam na mesma área profissional? Não, né?

Será que isso (de cuidar e não gerir) é verdade ou é um estereótipo? E se é um estereótipo, a quem ele serve? Será que ele atrapalha alguém? Você já percebeu que as profissões ligadas ao cuidado, como a enfermagem, a docência, a assistência social, o cuidado com idosos e crianças são tradicionalmente ocupadas por mulheres e também menos valorizadas que outras ocupações?

Li no início do ano Hidden figures, o livro no qual foi baseado o filme Estrelas além do tempo, a história das mulheres negras cujo trabalho tornou possível o programa espacial americano. Pois bem, essas mulheres, que tinham graduação em matemática e só foram recrutadas pela NACA (o nome da Nasa antes de virar Nasa) porque durante a 2a. Guerra Mundial não havia mão de obra masculina suficiente para dar conta da demanda.

Mas o problema não acabou aí. Um homem com a mesma formação que elas era contratado como engenheiro, mas as mulheres da Naca, não. Elas entravam na instituição como "computers", um cargo inferior (e com salário menor) e poucas conseguiram evoluir na carreira a ponto de se tornarem engenheiras. Mesmo assim o trabalho delas foi fundamental para o esforço de guerra na década de 1940 e para a corrida espacial nos anos 1960.

Mas, de repente, você até simpatiza com a causa, mas não quer se chamar de feminista porque não milita, não quer sair de peito de fora na rua, não foi vítima de violência sexual nem curte ficar sem se depilar. A palavra feminismo sempre foi demonizada porque essa é uma estratégia eficiente para isolar e conter um movimento. Ela atribui a um movimento inteiro a ideia de que essas mulheres, que exercem o direito que têm de lutar por direitos, são de alguma forma inadequadas, histéricas, exageradas, loucas.

Então muitas mulheres fogem do feminismo porque acreditam que para ser feminista é preciso militar: bem, não. Não existe um bureau de feminismo que emite carterinhas para quem é sócio ou checa credenciais. Não é preciso ir na marcha das vadias, nem tirar a roupa em público. Se dizer feminista é dizer que você defende que homens e mulheres devem ter direitos iguais. Só isso. Eu, por exemplo, me digo feminista em solidariedade a quem, de fato, milita. Porque essas mulheres que estão na rua enfrentam todo tipo de agressão e o mínimo que posso fazer é dizer: tamo junto!

A ex-publisher do Washington Post, Katharine Graham, fala o quanto ela, ao assumir a liderança da empresa na década de 1960, demorou para perceber e discutir assuntos relacionados à liberação da mulher e a igualdade de gênero no mercado de trabalho.

"Eu assisti o movimento das mulheres de longe, num primeiro momento e me senti dissuadida de participar pelas ações dessas feministas pioneiras que tiveram que, hoje percebo, assumir posições radicais para dar ênfase a necessidade das mulheres serem iguais e livres. Eu não conseguia entender a militância e não gostava das imagens icônicas do movimento de queimar sutiãs, que me pareciam ser um sinal de que o movimento não era pelas mulheres, mas de ódio aos homens" (Personal history, p. 422, Katharine Graham)

Como nos anos 1960 ser feminista significava queimar sutiãs, hoje parece ser colocar os peitos para fora. Mas essa é uma visão simplista que esquece que militância é expressão. Tem mulheres que se expressam tirando a roupa, mas elas não estão reivindicando que todas tirem a roupa. Elas estão reivindicando o direito de exibir o corpo por vontade própria e não só nas páginas de revistas masculinas. A luta delas é a mesma da muçulmana que quer cobrir a cabeça e da evangélica que quer usar saia longa sem ser julgada como submissa.

Mas pelo que temos que lutar hoje? Os desafios são imensos. Houve um avanço significativo nas leis que tratam da violência contra a mulher, especificamente a que acontece dentro do lar. No entanto, entre a existência da lei e sua aplicação há um caminho tortuoso. Essa semana mesmo nós vimos o caso do cantor que foi acusado pela esposa grávida de tê-la agredido e o quanto a acusação da moça foi colocada à prova, até que ela mesma a retirou, repetindo um comportamento comum a vítimas de violência doméstica (dá para ler um texto ótimo sobre isso aqui).

Em 2015, o ator Bill Cosby, uma lenda da tv americana, perdeu contratos de tv depois de mais de 30 anos abusando e estuprando mulheres. Ele é acusado de usar drogas para dopar as vítimas. Uma capa da New York magazine reuniu 35 mulheres agredidas pelo ator, num ato histórico de reconhecimento de um caso de violência sexual serial.

Além da luta contra a violência, as mulheres têm percebido cada vez mais a necessidade de ter suporte para uma vida profissional mais equilibrada com a pessoal. O Brasil teve avanços com a extensão (em alguns casos) da licença maternidade para seis meses, mas ainda há a necessidade de se discutir recursos que permitam que os homens compartilhem o cuidado com as crianças e para que a vida profissional da mulher não seja prejudicada pela familiar.

As mulheres também continuam a receber, em média, 20% a menos de salário que os homens, em especial por ocuparem menos cargos de chefia e terem menos oportunidades de avanços.

Se nada disso tem atinge, será que é esse mesmo o caso para outras mulheres próximas a você? A sua diarista terá direito a licença maternidade se engravidar? Suas amigas com filhos contam com o apoio integral dos pais das crianças (e não precisam ouvir dos outros: "que bom que ele te ajuda")? Suas colegas de trabalho têm as mesmas oportunidades de progredir na carreira? Você nunca viu uma mulher ser condenada por ter engravidado de alguém sem que ninguém questionasse a responsabilidade do homem?

No próximo dia 8 de março mulheres do mundo todo vão parar de trabalhar, ou pelo menos reservar um tempo para ir para as ruas ou protestar usando roxo e falando sobre os problemas que nos são comuns. Aproveite o dia para você também se informar. Para olhar além dos peitos nus e das palavras de ordem e ver se há um espaço para você nessa luta. Se você perceber que sim, venha. Nós, tuas irmãs, estamos te esperando.