Pelos futuros jornalistas

Uma coisa sei que tirei dos meus primeiros dias como repórter: a segurança de estar no papel de jornalista. Sair na rua, entrevistar pessoas, questionar, cometer erros é um negócio apavorante. Você precisa de um pouco de confiança e segurança para sobreviver e fazer o que é preciso.

Lembro claramente das vezes em que tive que me concentrar pra não deixar a mão tremer na hora de anotar as respostas numa entrevista com uma pessoa particularmente intimidadora. É fácil depois de 15 anos nessa vida subestimar o esforço necessário para se impor como repórter.

Se apresentar como repórter sempre foi, pra mim, uma maneira de entrar com segurança em qualquer lugar.

Porque ter medo é, obviamente, normal, mas também muito ruim para o exercício do trabalho de reportagem. Quem tem medo não vai aos lugares que tem que ir, não fala diretamente com as pessoas, se esconde atrás do computador, do celular com whatsapp.

Parte do que nos "protege" como jornalistas é a noção de que estamos lá para contar como as coisas aconteceram, para dar voz a quem não tem. De um jeito ou de outro, a comunidade entende o papel que desempenhamos e nos trata de forma a permitir que isso aconteça. Não impede, mas inibe a ação de quem tenta nos intimidar.

No entanto, eis que vivemos uma demonização da imprensa. Claro, muito disso é culpa da má qualidade de alguns veículos. Mas também é resultado do desconforto de muitos com a ação da imprensa quando esta mostra algo que os desagrada (mas que não é, necessariamente, mentira ou manipulação).

A maior parte dessas críticas tem como alvo uma entidade denominada "a mídia" que, na prática, não existe. Não no sentido de algo único, coerente. O que chamamos de mídia é, na realidade, um monte de coisas tão díspares quanto a Veja, o blog do bairro e a ong Pública. Até o Washington Post publicou um artigo sobre isso:

I’m writing because I have a request: Please stop calling us “the media.”
Yes, in some sense, we are the media. But not in the blunt way you use the phrase. It’s so imprecise and generic that it has lost any meaning. It’s — how would you put this? — lazy and unfair.

O problema é que não só de críticas vive a retórica contra "a mídia". As agressões, que sempre existiram, agora ganham dimensão de justiça, uma noção - bem, desculpe o termo chulo - idiota, promovida por grupos que tomaram para si o trabalho de registrar a História. Nada contra o jornalismo cidadão. Mas grupos de interesse ideológico são, por definição, exemplos dos mesmos problemas de parcialidade e adesão política apontados nos veículos mainstream.

Só que o jornalista do veículo X ou Y não impede que o samurai da notícia registre, edite e divulgue o que quiser sobre um fato. Mas a massa inflamada pelo discurso anti mídia golpista (e o que mais o valha), sim, como vimos na agressão ao jornalista Caco Barcellos.

Acho improvável que Barcellos - que é um dos melhores jornalistas do país e alguém que, de fato, fez muito para manter vivo o espírito de "dar voz a quem não tem" - deixe de trabalhar por conta do episódio. Ele tem o benefício de uma estrutura de produtores, repórteres e recursos tecnológicos que o ajudam a não precisar mais ficar na linha de frente.

No entanto, a agressão a ele e a divulgação entusiasmada dela nas redes sociais faz muito para deixar a próxima geração ainda mais temerosa do trabalho de rua. Ela ajuda a acabar com a aura de proteção ao trabalho do jornalista. E prende o profissional cada vez mais à redação, ao Facebook, Whatsapp, fontes oficiais. E quem perde com isso? Todos nós.

Em 2008 (acho, não lembro bem), quando os estudantes ocuparam o Colégio Estadual do Paraná para protestar contra a manutenção da impopular diretora eu era repórter de um portal de notícias. Ninguém podia entrar no prédio onde a diretora atendia veículos de comunicação escolhidos a dedo. Foi quando alguns estudantes que estavam na parte de fora da instituição abriram caminho entre os funcionários e empurraram jornalistas e fotógrafos em direção à sala da diretoria, rompendo o cerco e forçando a mulher a dialogar com a imprensa.

É provável que os estudantes não tenham gostado de todas as reportagens produzidas a partir daquela entrevista que eles viabilizaram. Mas a ação deles garantiu o acesso dos jornalistas à informação e a visibilidade do assunto nos veículos da cidade. Este ano, no entanto, graças à demonização burra de TODO E QUALQUER JORNALISTA a mesma imprensa foi barrada fora dos colégios ocupados.

Pior, nem mesmo o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná, entidade que deveria proteger a categoria, se manifestou a respeito da animosidade tanto das ocupações quanto do Movimento Brasil Livre contra os repórteres.

Defender o direito do jornalista de não ser agredido no exercício da profissional é condição básica para uma imprensa livre, democrática. Não se trata de validar práticas inaceitáveis de veículos de comunicação, nem de deixar de criticar a má qualidade do jornalismo produzido. Mas sim de respeitar o direito do trabalhador de trabalhar em segurança.

E vamos ser claros: agredir repórter é, além de crime, censura.

Agredir o jornalista é violentar o elo mais fraco da cadeia. E, curiosamente, trabalhar contra uma das forças mais importantes de mudança dentro das redações. Quem nunca trabalhou numa redação não sabe, mas na maior parte do tempo a ação do jornalista não é supervisionada. Ele sugere e escolhe pautas, ele seleciona os entrevistados, ele opta por uma e não outra citação.

Cada nova leva de jornalistas que chega ao mercado é um sopro de renovação, diversidade e energia numa profissão que maltrata muito todos seus integrantes. Essa turma merece o direito de provar no dia a dia a que veio, de ser julgada pelo que produz e de poder percorrer os caminhos que formaram grandes jornalistas como Barcellos e a Elvira Lobato.

Se eles errarem, que sejam cobrados. Mas não os impeça de trabalhar.