Conchita, Simone e aquele texto


Estou sentindo uma certa culpa por não citar a fonte do texto a que me referi no título. Posso dizer somente que um certo colunista da direita mais conservadora fez lá sua reflexão, impressionado que ficou com o novo conceito de homem, hoje, não tão comprometido com a “macheza” de Clint Eastwood e mais afeito a- esse sim, orgulhosamente, eu digo e linko — Laerte.

Laerte, conhecido por seu traço inconfundível e pela genialidade com que cria personagens e estórias que são, ao mesmo tempo, concisos e extremamente eficazes em transmitir suas mensagens, decidiu mudar. Ele se vestia de homem e hoje ele se veste como mulher. Assim. Hoje Laerte se assumiu como ela. Não sei se porque eu vivo num meio muito confortável em que as pessoas pensam e discutem mais ou menos as mesmas coisas com mais ou menos a mesma profundidade, mas até hoje eu sou meio chocada com o fato de como Laerte ter se assumido como mulher não ter gerado um alvoroço na platéia. Ele foi a muitos programas, deu várias entrevistas, mantém seu trabalho (cada dia mais sensacional), mas parece que nada aconteceu. Mas o mais engraçado é que eu sinto mais cheiro de silêncio do que de aceitação.

“não se nasce mulher, torna-se”

Simone de Beauvoir diz em seu livro “O segundo sexo”, que o gênero para a mulher é algo que se impõe a ela. Ela refuta a ideia de que exista um feminino digamos, “natural”, e discute isso segundo várias intâncias de pensamento. Infelizmente, não tenho como teorizar nem citar outros autores no que concerne à questão de gênero em si, seja ele masculino ou feminino. Por isso ,então, faço conjecturas.

Umas delas é que talvez o gênero não tem dado conta de definir ninguém. Mesmo em meu pequeno círculo, tenho tido a sorte de conviver com várias pessoas e contribuir um pouco com a luta pela aceitação das várias formas de se assumir como gênero. Certo é que, por causa da lentidão em aprendermos a enxergar as pessoas segundo o que elas são, e não segundo o que achamos que elas deveriam ser, não causa só a não aceitação do outro; causa, junto e apegadamente, a nossa própria prisão.

Voltando ao texto do colunista da revista cada dia pior das vistas, por exemplo. O texto é parvo, carece de leitura mínima, wikipediana que seja, de conceitos básicos sobre gênero, sobre feminismo, sobre Filosofia, sobre lógica até. Mas a mensagem que segue sorrateira, lado a lado ao brado de homem que procura por sua macheza, é a de que o homem está preso, apesar de querer e poder ser livre. Ele grita que quer ser macho não porque o mundo clama pela sua macheza, mas porque os caminhos estão cada vez mais livres e convidativos para que ele seja o que ele quiser ser.

Por exemplo, Conchita.
Conchita Wurst é o nome da drag queen encarnada por Thomas Neuwirth, cantor austríaco. Conchita ficou famosa por duas coisas, de pronto: ganhou o Festival Eurovision, em 2014 e por usar barba, mesmo quando está “montada”. Acabei de comentar no Facebook: a visão de Conchita me enche de tal forma de maravilhamento que eu não consigo parar de olhar pra ela. Eu sorrio sempre que a vejo. Ela me arrepia de prazer e amor. Não sei dizer se todo o frisson causado por ela vem acompanhado desse encanto. Mas arrisco um palpite em que tenho muita fé: Conchita faz sucesso porque ela confunde as pessoas. Ela é linda, ela tem uma voz maravilhosa, ela é charmosa, e ela tem barba, uma linda e bem aparada barba castanho escuro, como seus fartos cabelos, também lindos. Lembro de um professor de psicanálise (saudades, Geraldo) dizendo que tudo indicava que Deus só podia ser mulher. Eu sempre lembro disso como um exemplo de um exercício transgressor de pensamento, no sentido de nos obrigar a tentar explicar todo o nosso mundo de conhecimento tendo como base um deus que fosse mulher. Porque pensar o mundo tendo a mulher como centro é absurdamente contestador.

E, se ser mulher é contestador, o que é ser Conchita? Desculpe, a paixão realmente compromete a nossa visão, mas eu acho que Conchita é aquele monolito de 2001. Aquele ícone anos luz da compreensão dos símios que acabaram de descobrir o fogo, os pobres. Aquela existência de formas tão coerentes, mas ao mesmo tempo tão estranhas ali. Conchita é o resumo de todos os mitos, é a sereia que canta e encanta, é Eros, é a Lilith pop. Conchita é a prova real da transgressão mais simples, porém de imenso poder: ela é o que não conseguimos definir.

Fontes:
Womansplaining
R7
Ensaios de Gênero