Produção de conhecimento e realidade brasileira — 1

Qual a importância de uma posição ontológica e epistemológica num contexto social de precariedade de investimento produção de conhecimento? Tentarei fazer algumas provocações a respeito desta pergunta divido em dois textos e que assim podem ser considerados como conectados pelos mesmo propósitos.

Na posição de doutorando situado no campo das ciências sociais aplicadas (na qual me incluo) é possível se dizer que a posição ontológica e epistemológica assumida no processo da pesquisa é de suma importância por vários motivos. Em vários momentos do curso, principalmente em matérias curriculares, temos contato com as tradições das correntes filosóficas e sociológicas do conhecimento. Esse contato é sempre no sentido de por um lado, nos mostrar como o conhecimento tal como conhecemos foi construído e por outro lado, suscitar em nós posições diante destas tradições para que possamos enfrentar o problema de tese que nos propomos a pesquisar. Tal movimento é extremamente importante pois não somos uma ilha, antes de nós já houveram tantos outros que tangenciaram os mais diversos temas de pesquisa e que inclusive nos servem de referência por compartilharmos de suas visões de mundo. Tomar uma posição ontológica e epistemológica é também tomar posição política, uma vez que é sabido que várias posições são conflitantes entre si no que diz respeito a visão de mundo, ou seja, olhando para um mesmo objeto/fato social podem dar diferentes respostas. No contexto do produtivismo essas distinções ainda são exacerbadas, e muitas vezes a dinâmica concreta da realidade é relegada ao segundo plano, sendo o plano do embate teórico de posições aquele que assume o protagonismo.

Nada de novo para quem vive o dia a dia das pós-graduação foi dito até aqui. Retorno agora a pergunta de início para discorrer um pouco mais sobre a questão que considero importante: qual seja a relação entre essa tomada de posição ontológica e epistemológica diante da realidade brasileira. No início de agosto de 2018 toda comunidade acadêmica recebeu com tristeza um anuncio da CAPES onde o órgão anunciava o péssimo panorama financeiro para pagamento de bolsas em pesquisa, que contava até com a possibilidade de seu fim a partir de agosto de 2019 caso não houvesse um incremento do orçamento por parte do governo. Esse anúncio não ocorreu por acaso, o Brasil vive atualmente uma de suas piores crises econômicas que já data desde meados de 2015 e que tem se agravado após a troca no comando presidencial. São sintomas dessa crise no contexto universitário: corte no número geral de bolsas, diminuição de concursos para professor, corte no repasse para as universidades. Esses são alguns sintomas que se somam a tantos outros que aflingem a população brasileira tal como o desemprego e a inflação. O importante a se ressaltar é que em um contexto de recessão aonde são realizados cortes de investimento pelo Estado, têm-se revelado uma tendência do governo federal em relegar a ciência e a educação a um segundo plano de prioridades. Tal fato revela uma tendência à atenuação da disputa pelas verbas disponibilizadas pelo fundo público a pesquisa, ensino e extensão, em outras palavras, é reduzida a verba para um montante crescente de instituições de ensino e pesquisa e de programas de pós-graduação, o que suscita imediatamente também um acirramento por disputas também no campo das ideiais, ou seja, das posições de pesquisas distintas em posições epistemológicas e ontológicas.