A Hora Dourada (Golden Hour)

Na metade do século XX, Konrad Lorenz, Niko Tinbergen e Von Frisch (etólogos — que estudam comportamentos), introduziram o conceito do período crítico para o apego entre mãe e bebê, logo após o nascimento, que não se repetirá jamais. Nos anos 70 também foi estudado o que acontece na primeira hora após o nascimento, se não forem perturbados, mãe e bebê. A mãe ainda está no estado instintivo (mamífera) e o bebê possui o “reflexo de procura” e o resultado disso é o início imediato da amamentação.

Os códigos embriológicos são processos do nascimento compostos por pausas. São eles as contrações, a descida do bebê, a saída do bebê, as primeiras respirações, o cordão parando de pulsar, a saída da placenta e o bebê começar a mamar. Todas essas etapas possuem pausas que devem ser respeitadas, pois é um processo natural que acontece instintivamente; a não ser que elas sejam interrompidas por outras pessoas no cenário do parto. O bebê ao nascer tem os 5 sentidos muito aguçados e ele sente como pode ser assustador ter muita luz, pessoas falando alto, tirando fotos, colocando toquinha na cabeça dele, esfregando seu rosto com um paninho e etc. O momento após o nascimento é essencial, em todos os mamíferos. A mulher precisa de 1 min de descanso e o bebê também. Após a pausa do nascimento do bebê, ele precisa ir para o único lugar que ele conhece: o peito da mãe, considerado o útero externo; pele a pele, inicia-se a hora dourada (golden hour). A mãe é o universo do bebê. Nessa primeira hora, é o único momento onde há um pico de ocitocina da mãe e do bebê (a ocitocina pode ser liberada também com a massagem no peito do bebê). Nesse momento é onde a mulher está em estado de transe, onde acontece o vínculo mais forte do bebê com a sua mãe. E é aí que ocorre a primeira interrupção: médico, celular, fotos, família…

Durante essa hora o sistema parassimpático é ativado, começa a chamada hora da cura (marca embriológica), com a ativação do sistema de defesa. Depois desse momento o bebê se sente mais seguro e poderá descansar, se mais uma vez ele não for interrompido levando-o para o berçário, ou levando-o para conhecer a família; não podemos esquecer que os familiares terão todo o tempo do mundo para conhecer esse novo ser que acaba de nascer, porém a primeira hora só acontece 1 vez na vida e ela deve ser respeitada, exija que respeitem esse momento no seu parto.

Vamos lembrar que no momento do nascimento, o bebê terá uma experiência completamente diferente da mãe. Ela deve entendê-lo se colocando no seu lugar e o acalmando, isso leva o bebê a se sentir mais seguro. Se houver falta de comunicação, seja ela falada, com o contato ou com a amamentação, é como se houvesse uma ruptura entre os dois. Uma maneira de manter essa empatia, seria contar ao bebê todo o processo o qual vocês passaram juntos e como tudo acabou bem. Criar segurança > desacelerar > contar a história > ouvir a história > EMPATIA.

Falar com o bebê tudo que está acontecendo e o que vai acontecer, é uma maneira de mudar a experiência que já é traumática para ele.

A criança possui até os 18 meses apenas a memória celular; é por isso que o bebê às vezes, tem comportamentos repetitivos e não sabemos o porquê; ele está tentando nos dizer alguma coisa. Por exemplo, o bebê toda vez que vai mamar joga a cabeça para trás, isso pode ocorrer, pois ao nascer, em sua primeira hora, colocaram uma sonda em sua boca até a traqueia (aspirando ou não), e por isso ele não gosta que coloquem nada em sua boca. Isso se chama trauma.

Ainda na década de 70 a imunologia e a bacteriologia avançaram muito na questão do nascimento. Estudou-se a transferência dos anticorpos maternos (IgG) pela placenta. Com isso sabemos que os micróbios que a mãe está familiarizada são os mesmos que o bebê está, ou seja, o bebê ao nascer precisa estar em contato com a única pessoa que tem os mesmo anticorpos que ele, a mãe (é um lugar bacteriologicamente familiar).

O nascimento irá ocorrer! É um impulso natural. Se acelerarmos os processos no trabalho de parto, parto ou pós-parto, interromperemos a sequência natural da programação do nosso corpo, e, tudo trará consequências talvez para o resto da vida. Não deixe que lhe tirem essa hora mais importante para vocês dois. Mesmo que ela seja feita depois como nos casos de emergências: cesárea, ressuscitação ou hemorragia. O importante é acontecer essa “primeira hora”.