Um conto sobre Icaro

(ou: O pesar de Dédalo)

brilhei o brilho de mil sóis

flamulei nos estandartes pelos quais marchavam os exércitos

fui as palavras aveludadas nos ouvidos dos luxuriosos

fui o hidromel dos que comemoravam a vida

e então cai

e o brilho dos mil sóis queimou os estandartes

e o brilho dos mil sóis emudeceu as palavras

e o brilho dos mil sóis evaporou o hidromel

e veio o eclipse

então o brilho dos mil sóis foi contido

numa caixa feita de estilhaços da destruição causada

vedada com vergonha e lacrada com lágrimas

e o brilho dos mil sóis não foi mais visto desde então

em seu lugar apenas uma borda brilhante

uma lembrança dos tempos antigos

mas o brilho dos mil sóis ainda queima trancado na caixa

e ainda causa deslumbramento

e ainda causa destruição

os estandartes ainda queimam

os estandartes já não mais flamulam

não há palavras, apenas silêncio

o brilho dos mil sóis a tudo devora

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