A acracia… fará justiça à mulher

Teresa Claramunt, 1899
Traduzido por Lívia Olivetti

Se existíssemos na época em que a força muscular era signo de poder ao qual se submetiam os de construção orgânica frágil, está claro que nós mulheres seríamos inferiores, já que a Natureza teve o capricho de nos submeter a certos períodos que debilitam nossas forças musculares e fazem com que nosso organismo esteja mais propenso à anemia. Mas hoje, por sorte, nenhum poder, nenhum valor se dá à força muscular. Na esfera política, uma mulher enfraquecida, um menino doente, um neurótico, um tuberculoso ou um sifilítico são elevados pela ignorância aos mais altos lugares de poder para dirigir dali a embarcação do Estado.

Na esfera moral a força se mede pelo desenvolvimento intelectual, não pela força dos punhos. Sendo assim, por que se deveria continuar nos chamando de sexo frágil?

As conseqüências que nos acarretam tal adjetivo são terríveis: É sabido que a sociedade atual padece de muitas imperfeições, dado o deficiente que é a instrução que se recebe na Espanha, e falo da Espanha porque nela nasci e sofro as conseqüências diretas de seu atraso. O adjetivo «frágil» parece inspirar desprezo, no mais compaixão. Não: não queremos inspirar sentimentos tão depreciativos; nossa dignidade como seres pensantes, na meia-humanidade que constituímos, nos exige que nos interessemos mais e mais por nossa condição na sociedade. Na oficina nos exploram mais que ao homem, e no ambiente doméstico temos que viver submetidas ao capricho do marido tiranesco, o qual pelo simples fato de pertencer ao sexo forte se crê no direito de se converter no reizinho da família (como na época do barbarismo).

Se dirá que nossa intelectualidade é inferior a do homem. Mesmo que haja pretensos sábios que afirmem isso, os homens de estudos o negam. Eu creio que não se pode afirmar nossa inferioridade sempre que tenham a nós, mulheres, em reduzido círculo, dando-nos como única instrução um conjunto de bobagens, sofismas e superstições que mais atrofiam nossa inteligência do que a despertam.

Os homens que se nomeiam liberais1 são incontáveis. Partidos, o mais avançado na política, não faltam; mas nem os homens por si mesmos, nem os partidos políticos avançados se preocupam o mínimo que seja com a dignidade da mulher. Não importa. A bela acracia, essa idéia magna, fará justiça à mulher; para a acracia não existe raça, cor, nem sexo. Irmã gêmea da nossa mãe Natureza, dá a cada um o que precisa e toma de cada um o que pode dar de si.

Se soubesse, mulher, que belos resultados alcançaríamos se imperasse essa idéia tão desconhecida hoje pela quase a totalidade das mulheres… Se eu pudesse ser ouvida por vocês todas, com que afã, com que carinho às diria:

«Deixem, minhas amigas, desses embustes que lhes ensinam as religiões todas. Desterrem2 pra longe, pra muito longe, essas preocupações que as têm, como aos escravos do século XIII, com uma corda no pescoço que não deixa que se mexam para que não penetrem na senda da razão. Minha voz não chega a todas vocês, companheiras queridas; mas quaisquer que sejam as que lerem estas linhas que dita um coração que sente e um cérebro que pensa, não se esqueçam que a mulher tem que se preocupar com a sua sorte, tem que ler os livros que ensinam, como o fazem as obras ácratas, tem que se associar com suas irmãs e formar cátedras populares para aprender a debater ou para ir aprendendo o que nos convém saber».

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1N. da T.: O “liberalismo” a que se refere a autora não deve de forma alguma ser entendido como o liberalismo que existe hoje. Esse texto foi escrito numa Espanha em transição da monarquia para a república, e os liberais, naquela época e contexto, eram aqueles que defendiam a ruptura com o sistema monárquico;

2N. da T: “Desterrar”, sinônimo de “exilar”, “expulsar de determinadas terras”.