Uma sinopse das metas e objetivos da IWW (Industrial Workers of the World)

Por Lucy Parsons
Traduzido por Roxo e Negro Publicações

Se existe um país na face da Terra onde a classe trabalhadora precisa ser educada para entender seus interesses de classe, esse país é a América1. Os assalariados são ensinados que não pode haver classes nesse país, onde o filho de qualquer homem pode aspirar se tornar presidente destes Estados Unidos. Numerosas massas aceitam esse tipo de “incentivo” sem questionar. Milhares deles realmente acreditam que não temos classes aqui. Porque um homem, dentre treze ou catorze milhões de homens, é eleito ao invés de nascer para governar, aceitam isso como uma evidência indisputável da liberdade universal.

Outro fato cruel que é difícil de fazer a mente do americano entender, é que ele pertence a uma classe totalmente diferente daquela a qual pertence a classe empregadora. Como ele vê que alguns da classe assalariada ocasionalmente escapam dele para a classe média, ele acha que talvez possa fazê-lo também; então ele suborna a si mesmo para se manter quieto, enquanto a injustiça e a opressão são vistas por toda parte. Se ele se une ao seu sindicato, é apenas algo temporário, ou conveniência, já que ele espera se tornar um empresário ou aprender uma profissão, ou que seu filho se torne um empresário ou aprenda uma profissão, ou que sua filha se case com um homem rico ou que algo do tipo aconteça; e assim ele vai de ano em ano, subornando a si mesmo; enquanto isso a sua condição e de sua classe se torna cada vez mais desesperançosa.
 
 Além disso, os ensinamentos dos sindicatos reformistas são baseados em falsas premissas, já que ensinam a “identidade dos interesses entre o capital e o trabalho”. Se os interesses do capital e do trabalho são idênticos, por que ambos não pertencem à mesma organização? Nós precisamos ver a luta de classes do ponto de vista certo; logo, quando uma organização é fundada pelo propósito expresso de ensinar à classe trabalhadora os princípios corretos e fundamentais que formam a base do sistema salarial e sua própria relação com a classe trabalhadora, e quando nós entendemos que essas lições devem ser ensinadas nas reuniões dos sindicatos, aí sim poderemos saudar tal organização como uma verdadeira benção!

A Industrial Workers of the World2 foi lançada em Chicago, em 8 de julho de 1905 com o propósito declarado de demonstrar que “a classe trabalhadora e a classe empregadora não têm nada em comum.” Para que os leitores do The Liberator possam entender o que a Industrial Workers of the World realmente defende, deixamos o Preâmbulo da Constituição:
 
Preâmbulo da IWW

A classe trabalhadora e a classe empregadora não têm nada em comum. Não pode haver paz enquanto a fome e a necessidade forem encontradas dentre os milhões da classe trabalhadora e os poucos que formam a classe empregadora tiverem todas as boas coisas da vida. Entre essas duas classes deve haver uma luta até que os trabalhadores se unam tanto no campo político quanto no campo industrial e tomem posse do que produziram com seu trabalho, através de uma organização econômica da classe trabalhadora sem filiação a qualquer partido político. O rápido acúmulo de riquezas e a centralização da administração de indústrias em cada vez menos mãos tornam os sindicatos reformistas incapazes de dar conta do poder sempre crescente da classe empregadora, porque os sindicatos reformistas fomentam um estado de coisas que permite um grupo de trabalhadores ser jogado contra outro grupo de trabalhadores na mesma indústria, a derrotarem uns aos outros nas guerras salariais. Os sindicatos reformistas ajudaram a classe empregadora a desorientar os trabalhadores na crença de que a classe trabalhadora tem interesses em comum com seus empregadores. Essa tristes condições podem ser mudadas e os interesses da classe trabalhadora defendidos apenas por uma organização formada de tal modo que todos os seus membros, em qualquer indústria, ou em todas as indústrias se necessário, cessem o trabalho sempre que uma greve ou piquete for deflagrada em qualquer setor dela, tornando assim uma injúria a um, uma injúria a todos.
 
 Chicago, The Liberator, 3 de setembro de 1905

1N. da T.: Até os dias de hoje é comum que estadunidenses se refiram a seu país chamando-o de Estados Unidos ou América.

2N. da T.: Em tradução livre, Trabalhadores Industriais do Mundo.