cronos

Ricardo Pereira
Aug 23, 2017 · 11 min read

Com vinte e seis anos, Bernardo Utrecht subiria na máquina do tempo pela primeira vez com um único intuito: mais uma vez ver nua e transar com Grazielly, mas dessa vez sóbrio. Queria uma memória perfeita, distante daquelas que tinha. Queria uma memória para conseguir se lembrar de todos os detalhes que não tinha: a cor que tinham seus mamilos, as pintas que tinha nos ombros, se tinha algum pelo fora do lugar, ou pertencente no lugar certo, a maneira que seus peitos ficavam por cima da barriga. Queria também fazer um bom trabalho, diferentemente das duas vezes que tinham transado. Foram as únicas vezes que havia traído sua namorada de anos, Marcella, e mesmo bêbado sabia que trairia sóbrio mesmo assim. Na verdade, trairia com qualquer pessoa que mostrasse interesse. Não tinha nenhum problema em particular com trair, além de se sentir culpado por não se sentir culpado, se sentir mal por não se sentir mal. Grazielly mostrara interesse, mostrara desejo, vontade. Em duas transas gastaram três camisinhas. Ele gozou duas vezes, ela nenhuma.

O preparo principal necessário era físico. O que mais mudara era sua aparência, Bernardo tendo desde então engordado dez quilos, passado a deixar a barba crescer e mudado de corte de cabelo. A barba e o cabelo, inclusive, tinham trocado os polos. Essa, uma vez rala e mal cuidada ,agora era mais cheia, com pelos mais grossos, enquanto este uma vez lustroso, comprido, cheio de volume era agora opaco, curto e fino, tendo herdado a calvície prematura de seu pai ou algum outro dos muitos familiares carecas. A primeira medida preparatória foi começar a fazer uma dieta. Pararia de comer carboidratos, de maneira parecida com como havia feito quando impulsionado pela frustração de ter transado mal com Grazielly, na época tendo sentido que para transar com uma mulher daquelas era necessária uma patente de ser humano muito maior do que a que ele tinha, que ela jogava o jogo num nível muito acima do dele. Sentiu-se um bebê nos braços da mãe, imagem esta perturbadora tanto pelas implicações edípicas quanto pela exatidão em descrever a sensação que teve nosso herói. Passaria a fazer exercícios físicos, especificamente yoga (para fortalecer os músculos da pélvis e promover a elasticidade dos tecidos), exercícios aeróbicos e flexões. Os responsáveis pela máquina também sugeriram que algum fortalecimento mental era necessário: apesar de terem descoberto a inexistência efetiva do efeito borboleta, ainda era preciso tomar algumas precauções — não se podia discutir acontecimentos futuros. Passaria a meditar todos os dias para treinar sua disciplina, e começaria a fazer terapia. Prepararia assim também o psicológico, a fim de anular a possibilidade ter algum tipo de ansiedade de desempenho sexual.

O caso de Utrecht era exemplar no que tocava potenciais candidatos a viajante no tempo: uma visita impulsionada por motivos egoístas, acontecimentos ocorridos há não muito tempo, ainda frescos na memória do viajante, prontos para serem implantados pelo Bernardo Suplente Sóbrio na cabeça do Utrecht Bêbado Do Passado. Talvez pudesse ser levantada a hipótese ou possibilidade daquilo ser considerado estupro mas, depois da morte do politicamente correto — esta vinda junta da máquina do tempo

(“Cronos
D.E.S.F.A.Ç.A. Tudo De Mau!
T.E.N.H.A. Tudo Que Quis!”),

que deixou os cidadãos mais preocupados com desfazer seus traumas de infância (delegando-os ao que Ubeòul chamou Passive-Past Egos) do que com causas politicamente progressivas. Para as autoridades o consentimento no acontecimento primário bastava para que não fosse. Naquela época, também, ainda não existia causa para o monitoramento em direto — a capacidade de verificação de antecedentes da Cronos S.A. ainda não tendo começado a ser questionada.

Tendo em mãos o pacote de viagem, começou por desenvolver o plano, este não muito rebuscado — nem precisou da ajuda dos agentes de turismo. Nu e no passado, esperaria Utrecht entrar o banheiro do bar (onde entrou muitas vezes durante aquela noite) e daria um sedativo, talvez clorofórmio, a si mesmo. Tiraria as roupas e enviaria seu corpo passado inerte, este agora nu, para o futuro (precocemente), onde as velhas memórias daquele dia seriam implantadas no cérebro do jovem mais jovem. Vestiria suas roupas antigas, futuramente gastas, tomaria no balcão não mais do que uma cerveja, só para tê-la no hálito e não levantar suspeita, e finalmente assumiria seu lugar, desta vez ilegítimo, na roda do bar ao lado de Grazielly. O resto do trabalho já tendo sido realizado por Utrecht, era evidente que dormiriam juntos aquela noite. Tomaria cuidado para não falar sobre coisas que “Ainda Não Sabia” sobre Grazielly, mas além disso não havia muitas outras precauções a serem tomadas.

Com o plano feito, tinha seis meses de preparo. Inscreveu-se numa academia e num estúdio de yoga. Comprou livros sobre meditação transcendental e tornou a fazer terapia, esta que já não fazia há anos, desde antes de sequer conhecer Grazielly e namorar com Marcella. Expôs o porquê de ter voltado para sua nova psicóloga, Dra. Juliana. Não esperava a pergunta que fez:

— Por que você quer isso?

Não soube responder. Foi pra casa e não dormiu.

Levantou, passou o café, comeu uma torrada, tomou o café, escovou os dentes, foi para o trabalho. O chefe comentou a péssima aparência e disse que fosse para casa descansar: merecia um dia de folga. Dormiu no ônibus, perdeu o ponto. Voltou a pé, precisava do exercício. Chegou em casa, deitou e não conseguiu dormir de novo. Ligou para a terapeuta e marcou outra consulta. Deitou na cama e esperou o sono vir.

No dia seguinte ligou para o trabalho e disse que estava doente. Levantou, passou o café, comeu uma torrada, tomou o café, escovou os dentes. Esperou a hora da consulta sentado na cama. Logo que a consulta começou:

— Você já ouviu falar da terapia de Ubeòul?

Não tinha. Juliana sugeriu que Bernardo era um excelente candidato para tal, e explicou o que implicava.

— Mas eu nem sei que trauma eu tenho.

Perguntou se achava que querer reviver aquela situação, melhora-la, era uma maneira de procurar uma catarse. Bernardo fez que sim com a cabeça, dando de ombros.

— É acho que faz sentido. Mas viajar não é terapia.
— As vezes é. As vezes a gente encontra coisas no meio do caminho que ajudam a pôr em perspectiva o que é preciso pôr em perspectiva.

Acabada a sessão foi pra casa. Já escuro fora. Sentou-se na cadeira do computador. Na mesa tinha os livros sobre meditação, que ainda não abrira. Uma foto de si mesmo duas semanas depois do incidente todo com Grazielly, em cima de um Jeep perto da praia em Punta del Este. Marcella tinha tirado a foto. Foi a última viagem que fizeram antes de terminar. Olhou pra fora da janela, foi até cozinha e pegou um copo d’água. Tomou duas aspirinas e deitou na cama, sem sono. Depois de uma hora dormiu com fome.

Acordou se sentindo um pouco melhor. Levantou, passou o café, comeu uma torrada, tomou o café, escovou os dentes, foi para o trabalho. Depois do trabalho foi pro yoga. Se esforçou muito mais do que esperava e pensou em desistir. Voltou pra casa exausto, pediu uma pizza e comeu inteira. No dia seguinte começava com a dieta. Tomou um banho e foi pra cama. Dormiu.

Suas pernas e o quadril doíam. Levantou, passou o café, tomou o café, escovou os dentes, foi para o trabalho. Passou fome no trabalho. Depois do trabalho foi para a academia. Sua pressão caiu e quase desmaiou na esteira, sentou, tomou água, comeu um grama de sal. Foi até um por quilo e comeu meio quilo de filé e frango a passarinho. Pagou a conta e foi pra casa. Sentou na beira da cama e chorou. Pensou em ligar para Marcella. Pensou em ligar para Grazielly. Resolveu se masturbar e ir dormir. Não conseguia ficar duro. Socou a parede de raiva, tomou um banho quente (chorando), quebrou a dieta com o resto da vodka que tinha na geladeira. Dormiu.

Perdeu a hora. Levantou, chamou um taxi, foi para o trabalho. Era sábado e tinha esquecido. Andou o caminho de volta, na lanchonete da esquina tomou um café da manhã um pouco mais rebuscado. Tinha o estômago irritado. Parou no mercado e comprou uma garrafa de uísque. Colocou a garrafa na mesa e foi pro chuveiro chorar. Foi tomando até não reparar mais.

Sentiu por alguns segundos um cheiro de gasolina, ovos podres e suco de caju. Teve uma vaga lembrança que logo foi embora. Acordou no que achava ser a noite de sábado/madrugada de domingo. Parecia que no chão. Rolou para o lado na direção oposta de uma grande e fina luz que tinha a forma de um L ou de um E. A cabeça doía, o mundo rodopiava ao seu redor. Começou a salivar e sentia uma pressão na boca do estômago que forçava tanto para a parte de baixo quanto para a de cima. Com as palmas das mãos e o rosto tateava um carpete áspero, no nariz batiam migalhas que pulavam quando mexia a mão direita de um lado para o outro. Tinha muita sede e estava nu. Sentia sujeira grudada no corpo todo, migalhas e pó na barriga e no pênis. Conseguia ouvir água correndo, uma torneira ou chuveiro. Fechou os olhos e tateou o chão à procura de sua roupa, engatinhando com cuidado para não queimar a pele no carpete de lixa. Enxergou um interruptor fosforescente, pôs-se de pé — tomando todo o cuidado que conseguia para não cair. Mesmo assim quase caiu três vezes, uma com cada passo. Conseguiu se segurar no que parecia ser uma cama ou um colchão alto, de pé com o torso paralelo ao chão. Se jogou de ombro contra a parede num movimento que era simultaneamente subida e queda, apertou o interruptor e cerrou os olhos com toda a força. Levantou o braço e fechou a parte interna do cotovelo na ponte do nariz, antebraço no olho esquerdo, biceps no direito. Virou com as costas contra a parede e escorregou até o chão. O corpo inteiro doía. A pele do braço aderia à do rosto como em dias de calor úmido. Tentou abrir os olhos mas não conseguiu. Definitivamente não era o quarto de Utrecht. Percebeu um aroma doce como perfume de criança que emanava da cama, esta despida tal qual nosso herói. Segurando os olhos fechados levantou o braço para apagar a luz. Apoiou o queixo no peito, segurando o nada.

Os olhos abriram ao mesmo tempo que a porta, a luz que saía de lá agredindo sua cabeça, olhos e mente como um caminhão atropelando uma idosa que atravessa a rua de andador. Uma figura borrada em contraluz fazia sinais estranhos com os braços para cima, como se chacoalhasse com as mãos a própria cabeça. Utrecht levantou a mão tentando tampar a fonte da luz ao mesmo tempo em que tentando enxergar melhor a figura.

— Que foi Bê?

Colocou uma das mãos para baixo e tocou no interruptor, iluminando o quarto todo e anulando a contraluz. Completamente vestida, Grazielly secava o cabelo. Usava uma camiseta preta e calça preta, como costumava usar. Parecia confusa.

— Tá tudo bem?
— O que aconteceu?
— Como assim?
— Como eu vim parar aqui?
— Ah para de brincadeira vai, se veste que eu to atrasada.

Num movimento só pegou as chaves e a bolsa de cima da mesa de cabeceira. A roupa de cama do chão. O colchão tinha uma mancha densa centralizada, uma camisinha usada do lado.
— É sério
— É eu tô vendo. Olha, para de besteira, se veste e vamos embora?
— Você pode me dizer como eu vim parar aqui?
— Puta que pariu Bernardo e eu achando que tu tinha mudado.
— Como assim?
— Toda vez que a gente fica essa mesma bosta. Faz essa cara de confuso e diz que não lembra de nada. Tu te faz de alcoólatra mas acho que o teu problema é amnésia, viu.
— Eu não sei do que você ta falando.
— Ah pelo amor de deus se veste que eu tenho que ir pro trabalho.

Utrecht pegou as roupas de cima da outra mesa de cabeceira e começou a vestir. Como o uísque que bebera havia algum tempo, as memórias começaram a bater: ligou chorando para Marcella no estupor do álcool, depois para seu traficante. Comprou cocaína e ligou para Grazielly, que foi lhe buscar. Foram até sua casa, beberam, cheiraram, foderam. Broxou duas vezes, gozou cinco. Não lembrava se Grazielly gozou, portanto não. Mais uma vez mal lembrava do seu corpo nu, mais uma vez lembrava de ter se sentido um bebê nos braços da mãe. Sentiu o coração descer um pouco, a frustração de não ter patente. Era segunda-feira de novo e todas as memórias que tinha dos últimos dias eram tópicos, como as memórias de alguém que se lembra de coisas muito específicas mas sempre fora do panorama geral. Terminando de se vestir fechou o cinto, amarrou os sapatos e foi até a porta. Pediu desculpas a Grazielly e disse que da próxima vez seria melhor.

— Não sei se tem como ser melhor.

Não soube como interpretar essa frase mas não sentiu insinceridade na fala.

As semanas passaram com muito esforço, algumas melhores do que as outras. Resolveu não beber mais, o esforço maior sendo o de não comprar mais bebida (tendo-se acabado o estoque de casa nesse primeiro final de semana da preparação). A terapia continuou, apesar de que trocou de psicólogo, consultando-se agora com um Dr. Heinrich Enreberger. Depois de seis meses sentia-se mais saudável, mais centrado e mais forte. Tinha maior libido e sentia-se mais capaz de trazer prazer. Tinha plena convicção de que sentiria-se melhor fazendo essa correção no seu passado. No dia da viagem foi até o cronoporto e deu o documento à atendente. Ela o fitou com alguma curiosidade e um leve sorriso.

— Primeira viagem?
— Sim. Eu ainda não entendi muito bem como eu pago.
— O pagamento já foi feito, senhor.
— Por quem?
— Pelo senhor. Todas as viagens são pagas numa data futura e só são aceitos clientes que pagarão, portanto não há com o que se preocupar agora. A recolha de memórias é feita na porta de embarque — o senhor sairá da quatrocentos e oito. Boa viagem!
— Ah. Obrigado.

Pegou de volta o passaporte e se olhou no espelho. Parecia alguns anos mais novo. O cabelo ainda fino mas a mousse que passou ajudava a disfarçar. Tinha algumas rugas a mais. Diria a Grazielly que passou água no cabelo quando foi ao banheiro e ela estaria bêbada demais para reparar as rugas. Nenhum problema até aí.

Chegando no portão entregou a passagem ao atendente, que usava um relógio imenso no pulso. Parecia ter colado um relógio de parede com fita adesiva no braço. Sem dizer nada além de avisar que Bernardo precisaria tirar a roupa assim que entrasse, ajustou uma data e hora no relógio gigante e sinalizou para que seguisse em frente à porta de embarque. Era uma porta normal que dava no que parecia uma lata de lixo gigante. Um homem de terno com um binóculo na mão sinalizou que parasse. Tinha um crachá verde escrito

"Weverton
Coletor"

com o "C" da empresa em marca d'água no fundo. Sorriu diplomaticamente.

— Se o senhor por gentileza puder olhar aqui dentro e pensar as memórias que quer que sejam coletadas… — apontando o lado de ação dos binóculos (que afinal não eram binóculos, mas sim algum tipo de máquina fotográfica de duas lentes) para o rosto de Bernardo.
— Ah. Ok.

Bernardo se obrigou a lembrar da noite que passaria com Grazielly. Foram para o bar, beberam demais — mais do que deviam — , cheiraram cocaína no box do banheiro, tomaram um taxi pra a casa de Grazielly, tomaram mais uísque e cheiraram mais pó. Transaram duas vezes, ele gozou ambas, ela em nenhuma, gastaram três camisinhas. Da mesma maneira que da última vez, não lembrava de muitos detalhes. A máquina fez um barulho parecido com o apito do sensor do ônibus quando valida o vale-transporte e Weverton tirou-a dos olhos de Bernardo.

— É isso?
— É sim senhor Utrecht. Agora é só entrar, tirar a roupa e respirar fundo.

O Coletor sorridente sinalizou que entrasse. Dentro da lata de lixo conseguiu ver algo que parecia uma cadeira elétrica. Entrou, despiu, sentou. A porta fechou. Uma única instrução escrita na porta sugeria que fechasse os olhos e relaxasse. Uma carinha feliz amarela que na verdade era um relógio desejava uma boa viagem. Bernardo fechou os olhos com força e respirou fundo. Sentiu por alguns segundos um cheiro de gasolina, ovos podres e suco de caju. Teve uma vaga lembrança que logo foi embora. Contou até dez e abriu os olhos.

)

Ricardo Pereira

Written by

pois

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