ESTUDO ANATÔMICO DA ARTÉRIA DORSAL DO PÉ E SUA IMPORTÂNCIA EM PROPEDÊUTICA

ROGÉRIO PORTO DA ROCHA / GERALDO JOSÉ MEDEIROS FERNANDES / ÉRIKA AMÂNCIO / ALESSANDRO VENGJER / ALBERTO GOMES / TAQUES FONSECA / WESTER EIDI NISHIMURA

Frequentemente a artéria dorsal do pé é utilizada como método propedêutico para avaliação do pulso arterial na extremidade inferior. Sua palpação é um dos parâmetros importantes na avaliação da circulação periférica, particularmente em casos suspeitos de claudicação intermitente. Uma diminuição ou ausência do pulso da ADP sugere insuficiência arterial.

No entanto, suas características, morfometria e morfologia são dados ainda não muito bem descritos na literatura mundial, o que motivou os autores a realizarem um novo estudo referente a esses dados.

MATERIAL E MÉTODO

Foram dissecadas 41 peças anatômicas fixadas em formaldeído a 10% no Laboratório de Anatomia do Curso de Ciências Médicas do UNILUS em Santos. Os autores utilizaram a técnica de incisão mediana no dorso do pé com bisturi entre as articulações tíbio fibular e metatarso falângica, seguida de incisões perpendiculares na altura dessas mesmas articulações.

Foram rebatidos o tecido adiposo e a fáscia superficial, seguida de dissecção e isolamento da ADP.

Com um paquímetro graduado em milímetros, com desvio padrão de 0,5mm, foi feita a verificação do diâmetro no terço médio dessa artéria e sua extensão foi medida a partir de sua origem aparente (no retináculo inferior dos extensores) até seu aprofundamento ou bifurcação.

A distância da ADP em relação à porção medial do ventre do músculo extensor curto do hálux também foi analisada, assim como seu trajeto em relação à porção medial do músculo anteriormente citado.

RESULTADO

Nas 41 peças dissecadas, os autores puderam observar que em apenas 5 a artéria não foi encontrada; as demais 36 foram estudadas sob o ponto de vista topográfico, morfológico e morfométrico.

No estudo topográfico, observou-se que a ADP apresentava-se paralela ao músculo extensor curto do hálux, estando ou não adjacente ao mesmo, levando-se em conta a porção médio proximal do mesmo músculo. Em 78,2% dos casos a ADP não era adjacente ao músculo. A média simples da distância em relação à porção médio proximal do músculo extensor curto de hálux foi 0,54mm; sendo a maior distância de 0,89mm, a menor 0,27mm e a média entre estas, 0,58mm.

Em relação à morfologia foram observados quatro tipos: O tipo I caracterizou-se pelo aprofundamento da artéria dorsal do pé próximo à terminação do ventre do músculo extensor curto do hálux; é o tipo mais comum representando 20 peças. O tipo II caracterizou-se pela divisão da ADP em dois ramos: um profundo próximo à terminação do ventre do músculo extensor curto do hálux e outro superficial que prossegue entre o tendão do músculo extensor longo dos dedos; representando 8 peças. O tipo III caracterizou-se pela bifurcação da artéria, inferiormente, ao ventre do músculo extensor curto do hálux; responsável por 5 peças. O tipo IV caracterizou-se pela continuação da artéria entre o tendão do músculo extensor longo do hálux e o tendão para o segundo dedo do músculo extensor longo dos dedos.

Referente à morfometria foram avaliados calibre e comprimento, sendo o calibre medido no terço médio da ADP e o comprimento medido a partir do retináculo inferior dos extensores (início da artéria) até sua bifurcação, formação de ramos ou aprofundamento conforme citado anteriormente. Em relação ao comprimento, a média simples foi de 58,4mm. Seu calibre obteve média simples de 3,8mm, moda de 3,2mm e os valores superiores e inferiores 2,1mm e 5,9mm, respectivamente.

DISCUSSÃO

Com relação à ausência da ADP encontramos em nossa casuística 12,1% de inexistência concordando com Moore e Hoppenfeld os quais referem a não ocorrência em 12 a 15% dos casos, divergindo de Woodburne, que descreve 5% de inexistência.

Avaliando dados topográficos da literatura não foram encontradas referências quanto à distância existente entre a artéria e o músculo extensor curto do hálux. Entretanto, a maioria dos textos descreve muito bem esta relação. Conforme os autores, a artéria frequentemente encontra-se paralela ao músculo, mas não adjacente e, portanto de acordo com nossos resultados.

A respeito da morfologia há uma significativa controvérsia entre os dados analisados na literatura e os verificados em nossas dissecções, naquela são citados os seguintes ramos: artéria arqueada, artéria plantar lateral, artéria plantar profunda e primeira artéria metatársica dorsal. Todavia, foi verificado que estes ramos não apareciam necessariamente de forma concomitante, permitindo a classificação em tipos já referidos. Do ponto de vista morfométrico, Latajert descreveu a artéria possuindo um calibre de 2 a 3mm. Entretanto, em nossos achados, foi encontrada uma variação de 2,1mm e 5,9mm, sendo a média geral de 3,8mm. Na avaliação do comprimento, não se levou em conta a variação do tamanho dos pés dissecados que poderia influir nos dados morfométricos, sendo adotada a média geral dos vasos diminuindo o viés de confusão.

Em nosso estudo verificamos que, devido à grande variedade morfológica e morfométrica da artéria dorsal do pé, a dificuldade na palpação pode ser explicada por uma variação anatômica não rara. Portanto, o conhecimento de tal fato pode induzir à formulação de falsos diagnósticos.

Diante disto, a associação da história clínica e da palpação de outros pulsos periféricos na mesma extremidade do corpo se faz necessária para uma melhor avaliação inicial do paciente com suspeita de patologia arterial.

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Rogério Porto da Rocha

Written by

Artigos escritos ou co-escritos pelo Dr. Rogério Porto da Rocha (CRM-SP 75715 ), sobre o mundo da cirurgia plástica, estética e muito mais!

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