Viu como ele sofreu?

Uma coisa aqui outra ali sobre esse filme da imagem


Talvez ‘12 Anos de Escravidão’ não funcione com um filme crítico.

E talvez a maior alegoria para isso se encontre no momento em que Solomon Northup, homem livre, sequestrado e feito escravo, é dependurado em sofrimento abafado a um pé de pau. E a câmera faz com que se veja o seu embate durante 2 ou 3 minutos, enquanto os outros homens e mulheres feitos escravos trabalham no resto da plantação, em plano posterior.

A crítica de ‘12 Anos é abafada’ e para isso temos de pensar no que leva a essa criação ficcional a causar uma possível rotura na realidade da audiência para que esta, portanto engajada, possa seguir continuidade à sua empreitada político-emancipatória.

A explicitude do filme é realmente necessária para que haja a transposição de uma antiga para uma nova sensibilidade? Qual é a transição de uma explicitude da situação real e da espetacularização?

Questões que me martelam o pensamento. Mas longe de mim tentar explicar isso, o que não é meu objetivo aqui. Na verdade nem sei. E só quero saber daqui a 15 anos.

Prossigo: ‘12 Anos’ foi uma empreitada que foi legitimada por vários mecanismos publicitários e espetaculares, e, logicamente, isso já conta para a decaído do seu, digamos, nível de criticidade. Steve, seu diretor, deve obrigações a uma produtora que faz parte de um sistema cíclico de produção que vai desembocar no Oscar. Vejamos, se o filme fosse realmente crítico, ele estaria ganhando um Oscar? Depende, quando eu olho pra ele, primeiro penso que não, mas depois penso de novo e vejo que qualquer filme com negros ganhando é melhor do que uma mulher branca que sobrevive pra voltar pra terra. (Por sinal ela deveria ter ficado é lá, já que pras mulheres também não tá fácil. Se fosse de outra etnia, é que não deveria voltar; povoaria-se Marte, sei lá. Júpiter, talvez, lá tem uns aneis de poeira, uns gelos).

‘12 Anos’ foi feito para a catarse. Mas de quem? Solomon, segue vivia sua vida comum livre, que foi abalada por uma grande reviravolta que foi seu sequestro. Esse modelo de criação fictícia, de equilíbrio, desequilíbrio já perdeu há tempos sua capacidade crítica e já antecipa o que vai haver no final. E a catarse final foi catalizada pela ação de quem? Um homem livre branco. De quem é a produtora do filme? Vocês já sabem. O filme já antecipa a catarse de liberar o homem, portanto, a sua capacidade de engajar parece sumir feito poeira quando sobem os créditos. A catarse está ligada apenas àquele fechamento narrativo. Faltou o salto à realidade crítica.

Essa catarse, portanto, funciona como um corte de realidade, fazendo com haja uma inserção política dos sujeitos? Esse modelo descritivo é completamente válido como uma possível documentação, mas talvez sua acepção político-crítica seja falha. O filme apela pela exposição passiva da representação e da catarse.

Porém, bichos, ele se põe nessa suspensão de ser sempre espetacular, em parte, nas cenas que a narração para para dar aspecto à vida: como a própria cena do enforcamento, ou cena da cantoria gospel.

Talvez o filme político tenha de ter um distanciamento estético que leve em conta a atividade da recepção, em detrimento da catarse e da passividade. ‘12 Anos’ se antecipa muito muito em apenas liberar um certo sentimento de alívio, além da sua situação de produção não uma das mais politicamente críticas.

Mas deixo claro, bem claro que, por outro lado, filmes com protagonistas negros e com narrativas ‘negras’ realmente merecem destaque e, pô, eu gostei do filme, dei 5 de 5 estrelinhas. Mas infelizmente ainda não há uma quantidadade satisfatória de filmes diaspóricos que tenham destaques, talvez esses deveriam ser postos à vista.

De espetacular por espetacular, pelo menos o Django Livre teve uma catarse irada.

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