Azarão

Saulo acordou na manhã daquela sexta-feira rezando para que o expediente acabasse antes das quatro como sempre acontecia. Era cinco para as seis da madrugada e ele não queria levantar. Mas levantou.

Ao tentar desligar o ar condicionado percebeu que o mesmo já estava desligado. Então, viu que o aparelho recém comprado havia parado de funcionar no meio do sono e agora não queria mais ligar. Procurou o telefone da assistência técnica, mas só depois de ligar sete vezes sem sucesso que percebeu que a loja só abria daqui duas horas.

Correu pro banheiro para o seu ritual matinal. Não tinha papel higiênico. No chuveiro, água gelada. Saiu molhado pela casa e interfonou na portaria. Ninguém atendeu. Se enxugou, mesmo sem terminar o banho. Ao abrir sua gaveta de meias, percebeu que todas as meias brancas estavam rosas. Nunca comprei meias rosas, exclamou em voz alta. Após fixar seu olhar por longos minutos em uma das meias, Saulo lembrou que a sacola de roupas que enviou à lavanderia voltou com um bilhete dizendo: Desculpa pelo erro, senhor, mas podemos concertar. Venha pessoalmente até nós para resolvermos este problema. As vestiu mesmo assim, pois nada iria conseguir fazer.

Não tinha café. Mas tinha uma fatia de pão e uma colher de geleia de morango que estava com uma aparência de vencida. Antes que conseguisse comer, o pão saltou de suas mãos e foi ao encontro do chão frio. Saulo respirou e soltou “Adeus, café-da-manhã.”

Terminou de se vestir e demorou para encontrar sua pasta de trabalho. Mas o pior estava por vir. Saulo conseguiu perder a chave de casa dentro da própria casa. Quando percebeu que havia deixado a porta destrancada, saiu deixando a chave pra trás, esteja onde ela estiver.

Quase sete horas e ele começou a temer que chegaria atrasado. Pra piorar, elevador parado. Desceu os treze andares pela escada. Suou como um obeso após realizar uma volta olímpica no Maracanã às duas e meia de uma tarde ensolarada em outubro. Quem o viu, reparou. E assim ele deixou o prédio.

Andou por dois quarteirões até a conveniência mais próxima. Só queria um café e pão na chapa. Para sua surpresa, estabelecimento fechado. Durante a madrugada, uma violenta briga deixou feridos pelo local e a polícia foi acionada. Para melhor investigação, interditaram o local. Ninguém entra e ninguém sai. Saulo desistiu de se alimentar.

Mais um quarteirão andando e lá estava ele no escritório. Dois minutos atrasados. Mas para sua sorte, não havia ninguém.

Entrou. Sentou. Respirou.

O computador demorou a ligar. Quando abriu seu e-mail, uma surpresa. Reunião de emergência com os diretores regionais às cinco da tarde daquele dia foi marcada durante a última noite. Reunião essa que só acontece quando a empresa precisa diminuir o quadro de funcionários. Saulo se deu conta que jamais iria chegar em casa antes da sete da noite.

Antes que alguém chegasse, resolveu guardar suas coisas e desligar o computador. Mas antes, respondeu o e-mail:

Bom dia.

Amigo da empresa que sou e facilitador de processos visando um melhor rendimento pessoal e grupal, venho me desligar da empresa neste exato momento. Sendo assim, cancelem a reunião, pois azar mesmo é não ter livre um fim de tarde de sexta-feira. Toma no cu…

Saulo.

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