Dois contra um

Um rapaz. 30 anos. Ou um pouco mais. Entra num parque municipal com seu drone recém comprado em sua viagem para os Estados Unidos. Bem vestido e careca por opção, aparenta ser de classe B+, no mínimo.

Dois guardas municipais. O mais alto, calmo, dono de um cabelo ralo branco, mexe no seu walkie-talkie sem compromisso. O outro, baixo e robusto, tem os olhos tristes e a cara sofrida, e vasculha umas papeladas no escritório do local.

— Senhor, desculpa, mas não pode usar esse aparelho aqui no parque. — avisa o homem de cabelo branco ao dono do drone branco com hélices vermelhas.

— Oi?

— O drone, é proibido usar ele aqui. Não pode voar. Lei.

O careca se aproxima. A cara não é das melhores. Nunca foi, pelo jeito.

— Onde tá escrito?

— É lei, senhor. Meu papel é alertar. Apenas. — o guarda volta a mexer no walkie-talkie.

— Aqui não tá escrito. Ali também não. Então eu posso. Aliás, esse parque é municipal. É meu! Então eu posso fazer o que eu quis…

O guarda mais baixo estava ouvindo tudo desde o início. Dono de um temperamento movido a polvoras, ele larga os papéis e desce os três degraus que separa o escritório aos dois personagens do lado de fora.

— Esse parque é teu e de todo mundo que tá aqui. É lei não poder usar isso aqui dentro. Se essa merda cai e fere uma criança, por exemplo, eu e ele — aponta pro amigo que ainda mexe no walkie-talkie — somos demitidos e olha lá se não processados. É lei, vai respeitar. Ou quer que eu disque pra polícia?

— Calma, cara. O rapaz aí já entendeu o recado. Não é? — o guarda alto quer sossego. Ele é da paz. Mas o outro não. Nem o dono do drone.

— Como você chama? — pergunta o dono do drone para o guarda recém chegado.

— Tapoi…

— Tapoi?

— Tapoibido usar drone aqui dentro!!!!

O policial nervoso já disca pro 190. Quer reforços. Quer confusão e chamar a atenção. Com a gritaria, três ou quatro que faziam caminhada já pararam pra assistir a cena.

O dono do drone pega o celular. Disca pro melhor amigo. Sem sorte. Pro outro. Nada. Tenta pro melhor amigo novamente. Coitado.

— Ô comandante, pede pro Texeira vir aqui no parque, por favor. Tem um indivíduo querendo desrespeitar a lei do drone. Se essa merda despenca lá de cima, mata uns três.

O dono do drone ri. Mas logo fica sério de novo, pois ninguém o atende.

A polícia não veio.

Ninguém atendeu o dono do drone e ele não ligou seu brinquedo. Foi embora.

O guarda baixo está no portão irritado esperando a chegada da PM.

O guarda alto está sentado mexendo no seu walkie-talkie, agora acompanhado de uma criança descalça e sem camiseta.

[história baseada em um acontecimento verídico]