Eu morri

Sim. Morri. Morto. Mortinho. Gelado. Outro plano.

Não estava me sentindo bem. Era hora do almoço e eu não queria almoçar. Só isso já era motivo pra eu me levar ao médico. Mas além de não estar com vontade de comer, também não queria sair de casa. O final de semana foi muito puxado e a ressaca ainda não saiu de mim. Por sorte, posso trabalhar do quarto. De repente comecei a sentir dores pelo corpo. Achei que era a ressaca chegando ao nível mais alto, mas, agora, sei que não era. Pra aliviar as dores, fui pra cama e dei play em The Crown, na Netflix. O quarto episódio da série sobre a Rainha Elizabeth não estava nem na metade quando eu precisei sair correndo para o banheiro. Vomitei tudo que ingeri nos últimos sete anos. Assim parecia.

Sem perceber, dormi. Acordei com o celular tocando. Era minha mãe me cobrando uma foto que ela pediu e eu não mandei. Por que mãe gosta tanto de guardar fotos aleatórias, né?

Estava me sentindo melhor, mas mesmo assim não queria comer. Estranho. Seis da tarde é o melhor horário pra lanchar. Sempre que posso, traço um X-Tudo. Ou dois, dependendo de como foi o almoço no trabalho.

Voltei pra cama e pra Netflix. Assisti a série toda e dormi de novo. Dessa vez só acordei com o despertador diário, sete e nove da manhã.

Acordei com dor pelo corpo todo, mas sabia que era pelas quase onze horas de sono que tive. Por incrível que pareça, meu corpo estava cansado de dormir. Eu não.

Abri a janela e vi que o dia prometia ser lindo. O sol esquentou minha cara fria por estar há um dia sem comer. Mesmo assim pulei o café-da-manhã.

Trabalhei normalmente o dia todo. Consegui fazer tudo que precisava. Até a maldita foto eu enviei pra minha mãe.

Oito da noite me chamaram pra comer pizza. Recusei. Aquelas dores no corpo estavam voltando e eu precisava dormir. E foi o que eu fiz.

Dormi mais onze horas. Acordei. Trabalhei. E não comi nada. Não queria. Estava sem vontade de comer e não tive forças nem pra dar uma risada no escritório. As pessoas nem me notavam mais. E era isso que eu queria. Entrar, trabalhar e sair. Foi assim por quase uma semana.

Sem comer, morri. Sozinho na cama do meu quarto com a Tv ligada na HBO. Não lembro o que eu estava fazendo, só lembro que eu fechei os olhos pra dormir. Dormi. Dormi tanto que acordei aqui.

Depois de estranhar o “paraíso” — não há anjos, só gente como a gente, mas calmos e falando baixo… muito baixo — fui parar numa sala onde um homem de barba branca, vestindo branco veio dar as boas vindas e explicar que eu morri. Chorei porque queria pelo menos avisar minha família. Depois do susto perguntei se poderia encontrar meus ídolos, Elvis, Janis Joplin e Keith Richards. Mais um susto, pois eu tinha certeza que Richards estava morto.

Já estou me acostumando com esta nova “vida”. Mas ainda não acreditei muito no que me disseram, que eu morri de depressão. Estranho!