Falar “buceta” duas vezes ao dia equivale à três horas de terapia relaxante

Eu pratico. Minha esposa pratica. Até minha avó, conservadora e beata, anda praticando.

Lá em casa era proibido falar palavrão. Nem um “cacete” era permitido. Meus pais são muito corretos neste sentido e eu, bom filho, obedecia. Mas aí eu cresci e fui morar em outro país. Voltei e fui morar sozinho. E quando a gente se vê sozinho, encrencado, sem dinheiro para pagar aquela terapia com psicólogos que tanto ajudou na adolescência, a gente se torna o mais desbravador da vida e começa a buscar alternativas.

Estressado e sem paciência para meditar, não conseguia me relaxar. Os problemas do término da faculdade, mais a chegada precoce de uma filha, mais as contas que estavam crescendo, não estavam me deixando calmo. Foi então, numa noite solitária de quarta-feira, antes de um jogo do Corinthians na Copa do Brasil, que eu surtei. Nervoso, derrubei dois pratos e um vidro de azeite no chão. Ao tentar limpar a sujeira na cozinha, quebrei um apoio da geladeira, deixando-a manca. E ao tentar consertá-la, cortei o pé com um caco de vidro do azeite. Meu corpo esquentou ao ponto dos meus olhos parecerem estarem saltando da face. E eu gritei:
 — BUCETAAAAAAAAAAAAAAAAA!

E repeti a frase. Com mais força:
 —BUCETAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!

O corpo esfriou. Os olhos voltaram ao normal e eu conseguia sentir os batimentos cardíacos se normalizando. Deixei a sujeira de lado e deitei na cama. De tão relaxado, dormi. Acordei no outro dia com a cama suja de sangue e o lençol marcado de azeite. Nem lembro o que tinha sonhado. Parecia ter saído de um workshop com o Dalai Lama. Estava leve e com vontade de agradecer pela vida que levava.

Depois daquele dia nunca mais abri mão dessa terapia diária usando apenas uma só palavra. Toda vez que estou estressado, grito “Buceta”, independente de onde estiver. Quando não estou estressado, grito no banheiro apenas para manter o PH do sangue em ordem. Duas vezes ao dia e tudo parece se acalmar de uma forma mágica. Nunca mais paguei psicólogo. A única coisa é que os vizinhos me olham de uma forma estranha. Foda-se, pelo menos estou economizando em terapia.

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