Garçom simpático me faz consumir mai$

Todo dono de estabelecimento deveria ler este relato

Eu sou muito chato quando saio de casa. Não são todos os lugares que me agradam por um único motivo: o atendimento.

Sabemos que no Brasil quase 80% (ou mais) não estão felizes em seus empregos. Querem ganhar mais ou fazer uma atividade diferente. E com o garçom não é diferente.

Se tem uma coisa que me tira de órbita é sair de casa pra comer e ser mal atendido. Não importa a razão.

Eu tenho uma teoria que algumas profissões são vocação e gosto e não apenas ir lá e fazer. Por exemplo: um mecânico tem que gostar muito de carro pra poder passar horas se lambuzando de graxa na fissura de descobrir o problema do automóvel. Quem não gosta de carro, está fadado ao fracasso. Ao contrário de um frentista que necessariamente não precisa gostar de carro pra abastecer, ele só precisa ser gentil e saber manusear a bomba de combustível. E a profissão de garçom não foge da do mecânico, mas desde caro ele precisa gostar de gente.

Garçom é servir sorrindo. É conhecer o cardápio da casa, dar sugestões e entender que todo o cliente tem razão. Pediu pra trocar palmito por azeitonas? Faça. Pediu mais arroz antes de terminar o que está na mesa? Faça. E assim infinitamente durante o expediente.

Com a rara exceção de encontrar garçom simpático hoje em dia, quando encontro um eu aproveito até onde posso.

Uma vez fui ao Burger King, lugar propício para passar nervoso pelo fato de ser sempre atendido por jovens mal treinados e iniciantes no mercado de trabalho. Mas aquele dia foi diferente. Jheniffer era o nome dela. Lembro dos dois “f” gritando no crachá que furava sua camisa azul escura. Eu entrei querendo apenas um Whooper Duplo com batata e refrigerante. Saí com o que queria e mais duas sobremesas. O motivo? Ela foi simpática, atenciosa, calma e entendeu que eu queria colocar mais cebola no meu lanche. Não ficou perguntando “por quês” e nem dando desculpas que aquele pedido não podia ser feito pois não tinha no sistema. Quando ofereceu a sobremesa, aceitei na hora. Quando sugeriu experimentar a nova sensação da casa, aceitei também.

Hoje acordei atrasado (durmo às cinco e acordo por volta das onze hora da manhã) e precisava sair. Avisei que não iria almoçar em casa mesmo vendo a mesa posta. Corri pro meu compromisso das 13h. Como estava perto de uma padaria que serve almoço executivo durante a semana, resolvi tirar a barriga da miséria ali mesmo. Um lugar lotado, mesas quase juntas, cadeiras colocadas milimetricamente no lugar e pouca gente para atender tantos clientes famintos. Me arrependi quando entrei! Mas era o que tinha pra hoje. Apertei o botão (graças à tecnologia não precisamos mais acenar igual pedir carona na estrada para chamar um garçom) solicitando um atendimento e a primeira garçonete apareceu com seu bloquinho de papel. Pedi a senha do wifi e o cardápio. Ela fez cara feia. Demorei pra escolher o prato e ela saiu sem falar que voltava. Ao escolher, apertei o botão novamente e um garçom apareceu. Sorridente me sugeriu não pedir aquele prato porque o arroz iria vir requentado — “Você gosta de arroz requentado, senhor?”. Quem gosta? Me sugeriu um prato um pouco mais caro e eu aceitei, vide a simpatia dele. Ofereceu um suco e eu aceitei (não gosto de beber nada enquanto como). Saiu sorridente, voltou sorridente, simpático e feliz. Quando viu que acabei de almoçar, voltou pra perguntar o que achei da sugestão, agradeci e elogiei. Ofereceu um brownie como sobremesa. Não gosto de chocolate mas aceitei, minha esposa irá gostar, pensei. Resumindo, gastei quase R$18,00 a mais por aceitar três sugestões de um garçom que sorriu pra mim. E não é sorrir no sentido sexual da coisa, é sorrir no sentido de gostar do que está fazendo, de olhar pra você e não ver uma obrigação. Ou melhor, não passar para o cliente a tristeza que é estar fazendo algo que não gosta.

Os gerentes de restaurantes deveriam ler este relato e começar a entender que quase todos os garçons hoje em dia estão naquela função porque precisam de dinheiro.

Quem gosta de ser garçom que atire o primeiro cardápio!

Se estão fazendo o que não gosta, precisam se sentir felizes por algum motivo. E não é dinheiro que estou falando. Se virem pra descobrir, pois há inúmeras pesquisas mostrando que dinheiro não é o único meio de alegrar um trabalhador. A não ser o garçom do meu aniversário de 19 anos.

No meu último aniversário antes de completar vinte anos, levei alguns amigos prum bar classe B+, A e A+. O que adolescentes de 19, 20 anos gostam de fazer em um bar? Beber! Ninguém queria comer. Só beber. De repente o garçom responsável pela minha mesa chegou a mim e pediu para que pedíssemos algo pra comer, elevando os 10% no final da conta. Confessei que ninguém queria comer naquela hora e ele terminou dizendo que precisava dos 10% pra alimentar os filhos. Sim, eu fiquei chocado que nem você. Não chocado pelo fato dos filhos estarem passando fome, mas pelo sensacionalismo desnecessário àquela hora da noite. Quase dez anos desse episódio e nunca mais voltei lá. Se ele tivesse sido simpático igual os profissionais das histórias acima, teria pedido um banquete, talvez.

Se tem gente que diz que paz não gera dinheiro, eu digo mais, a simpatia eleva o lucro e a fidelidade de um cliente. Taí, é só comprovar.

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