Leia tudo até o final

Esse título não é uma ação para você, caro leitor. Pode ser também. Mas as palavras contidas no título desse texto foram as que eu mais ouvi de uma professora de matemática na saudosa quinta série. Eu achava que ela estava se referindo aos enunciados das provas, mas ela estava dando uma dica valiosa para a minha vida.

Lembrei dessa história depois que li este texto do Rafael Barbosa.

Nunca fui o melhor aluno da sala. Desde pequeno já era o terror dos professores e liderava a gangue do fundão. Logo, sou de humanas. Então, nas provas de matemática, a única coisa que eu prestava atenção era nas dicas que a professora ia dando durante a realização do exame. E toda vez ela falava “Leia tudo até o final”. Eu lia, não entendia nada e ia mal. Nas outras matérias, português principalmente, eu ia muitíssimo bem, mas pecava na pressa e na falta de atenção e respondia questões achando que tinha entendido o enunciado. Toda vez que isso acontecia lembrava da professora de matemática.

Quando li o texto do Rafael, lembrei que uma vez, dois anos atrás mais ou menos, estava em contato com uma produtora de São Paulo que havia gostado de alguns roteiros que eu tinha feito pra cinema. Em uma reunião via Skype, eles disseram que iam mandar um e-mail pedindo um argumento de um projeto/ideia que eles já tinham esboçado. O e-mail iria pra mim e outros dois roteiristas, depois a produtora iria decidir quem ficaria com o projeto. Fiquei no aguardo do e-mail que chegou em uma semana. Feliz pra começar logo a escrever, me atentei aos dados importantes para dar start na argumentação, abri o Word e lasquei os dedos no teclado. Foram três dias escrevendo, apagando, escrevendo, apagando e pensando. Era um sábado quando enviei o arquivo formatado do jeito que eles pediram. Estava orgulhoso de mim! Foram cinco dias no total e eu já fiquei ansioso pela resposta. Como acredito em milagres, domingo fui checar meu e-mail para ver se tinha chego algo. Nada. Pelo menos o e-mail não voltou. E assim entramos na segunda-feira…

Nas primeiras horas do dia o e-mail chegou. Coração acelerado. Boca seca. Será que eles gostaram desse texto? Será que vai rolar? Vai sair do papel?

Não!

O e-mail não trouxe nenhuma resposta sobre meu argumento, muito menos um feedback. A produtora simplesmente respondeu:

Pô, furou o prazo, cara. Até breve…

Como assim furei o prazo? Eu falei na reunião via Skype que um argumento deve, bem no mínimo, levar cinco dias pra ser feito. E ninguém questionou! E eu cumpri esse prazo.

Com o corpo gelado, não quis responder aquele e-mail. Senti no tom daquelas palavras que elas vinham como uma mensagem óbvia de que realmente tinha um prazo que não era aqueles meus cinco dias. Então, pensei que eu poderia ter perdido alguma coisa ou não me atentado à alguma mensagem. Fucei no Facebook e no e-mail.

Achei!

No e-mail enviado com todas as dicas e especificações do projeto, o gerente terminou o texto escrevendo:

Faça o possível para entregar até sexta de manhã que é no almoço que vamos decidir com o (nome do dono da porra toda e quem iria dizer Sim ou Não).

Eu não li essa parte. Antes desse recado final ele disse ‘Boa sorte, Rafa’ e eu achei que ali era o encerramento do e-mail. Eu enviei 24h depois…

Na hora me vi em uma sala de aula, sentado na carteira sem ter o que fazer porque não entendia aquela prova de matemática, e a professora segurando a ponta branca de um giz, próxima à porta, dizendo de forma carinhosa ,

Leia tudo até o final”.

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