Minha mãe quer se matar

— Como assim, mãe, se matar?
 — Você ouviu e entendeu, Patricia, eu não aguento mais essa unica vida de merda que levo sendo mãe. Pra mim, deu!
 — Mas você não é só mãe. Você é esposa, amiga, professora, vizinha…
 — Meu cu! Ser esposa do seu pai é castigo, não sou e nem tenho amigas, deixei de ser professora meses antes do seu irmão nascer e desde quando ser vizinha de alguém é algo valioso para ser razão de continuar a viver?
 — Mãe, credo… você não está nada bem. Eu acho que você chegou na idade da loucura. Eu vou ligar pro Matheus.
 — Pra quê ligar pro seu irmão? Ele vai dizer que está muito ocupado e quando na verdade ele tá lá na casa daquela biscatinha de classe A tentando enfiar o pau nela. Dezesseis anos e já trepando com alguém sem compromisso… mereço?
 — Eu estou chocada. Olha o seu linguajar, mãe! Você nunca disse ‘porra’, nunca disse um palavrão, nunca encheu a boca para xingar alguém. Nem aquele cara da farmácia que tentou roubar a sua bolsa e quase decepou seu braço. Agora taí, falando coisas que nem meu pai consegue falar.
 — Seu pai? Quem disse que aquele canalha é seu pai, Patricia?
 — Ah tá. Jogo baixo agora. Vai dizer que meu pai não é meu pai e que eu sou filha de algum ex namorado, paquera ou parente.
 — Seu pai sou eu, Patricia. Sou mãe, pai, banco, parque de diversão, saco de pancada, psicóloga, amiga, inimiga, até namorado eu sou pra cumprir essa carência de ex adolescente frustrada.
 — Olha aqui, eu não sou frustrada por ter passado dos vinte sem emplacar um namoro, ok? Você que vive nessa sua loucura de achar que a gente vive te enchendo o saco. Você que é infeliz e quer chamar a atenção com essa conversa ridícula de suicídio quando na verdade não tem coragem nem de arrumar uma corda para fazer o serviço.
 — Realmente não tive coragem para encontrar uma corda que aguentasse meu peso. Por isso que eu estou segurando um revolver.
 — Mãe, que loucura é essa, mãe? Para com isso? Eu vou desligar esse telefone e ligar pro meu pai agora… Mãe… Mãe, responde! Mãe…!

Patricia nunca mais ouviu a voz da mãe.