O caos que eu amo

Nasci, cresci e fui criado no interior com direito à brincadeira na rua até alta madrugada e amizade com quase todos os residentes do bairro. E morar no interior é sim sinal de calmaria, tranquilidade e, não menos importante, pacato. E sempre gritou dentro de mim, de forma vulgar, que o meu lugar não era ali. E deve ser devido a este grito interno contínuo que com 16 anos estava sozinho no aeroporto internacional de Guarulhos esperando meu voo para Toronto onde morei e estudei por longos meses, sozinho.

Agora, resido em Ribeirão Preto. Bem menor que Toronto, mas infinitamente maior que o lugar que mencionei no parágrafo acima. Mas escrevo este relato aqui da capital paulista, fazendo, então, sentido ao título, porque São Paulo vive do e no caos.

E não vejo isso como demérito. Toda vez que posso, marco meus compromissos na capital em dias diferentes para sentir a loucura dos problemas caóticos daqui. Quando venho para eventos profissionais, venho só, logo, usufruo do transporte público até onde a margem de segurança permite. Acordo cedo, desço as escadas da estação Trianon ali na Avenida Paulista com a Alameda Campinas e começo a fazer cálculos para ver onde vai caber meu corpo naquele mar de gente famintas por espaço. Memorizo as linhas e estações e saio pela cidade atrás de cumprir os compromissos marcados. Não reclamo do empurra empurra nas transações de linhas, não me estresso com o individuo desavisado que bloqueia o lado esquerdo da escada rolante, não ignoro ninguém à procura de informações e não faço cara feia quando vejo vagões abarrotados de seres trabalhadores. Acho que pra resumir, calor e gente mal humorada são os únicos que me irritam e me fazem suar.

Este caos paulistano me dá energia e fortalece a vontade de morar aqui, mesmo já tendo sido convencido do contrário por ex moradores da capital que procuraram refúgio pacato lá na minha cidade natal. Eu me sinto livre estando na correria dentro das estações ou na super lotação em qualquer praça de alimentação de qualquer shopping em qualquer dia da semana. Me sinto preenchido vendo que ao meu lado há caos urbano, este que não fere a segurança de ninguém. Não quero cidade pequena, eu quero trânsito, buzina e filas andando. Quero movimento e acontecimento quase que de minuto em minuto. Quero ver, quero estar e quero fazer parte desse caos. Faz bem pra mim.

Agora acho que posso copiar este texto e enviar para meu terapeuta que não vejo há sete anos. O que acha?

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