O que eu acho que entendi do que você quis dizer sobre largar tudo para ser feliz, a Cleo Pires na campanha e esse mundão de meu deus
Aqui que é o lugar oficial dos textões, né? Então tá.
Eu tenho tentado ~fazer a discreta~ nas redes sociais. Isso tem a ver com um exercício de calibragem. Calibrar meus dois ouvidos e minha uma boca (sabe aquela máxima de ouvir mais e falar menos?) com meus dois olhos e duas mãos (as duas partes do meu corpo que estão sempre prontas para consumir e opinar sobre qualquer assunto nessa maravilhosidade que é a internet).
Essa discrição começou pós-eleições. No auge do duelo petralhas vs. coxinhas, eu me posicionei. Foi ótimo. E foi horrível. Descobri ilustres contatos cheios de opiniões compatíveis com as minhas, peguei ~bodinho~ de pessoas que (para mim) estavam postando asneira, mas dentro do então direito de liberdade de expressão que todo mundo tem, e perdi uma amizade por causa de um comentário. ¯\_(ツ)_/¯
Desde então, tenho observado algumas coisas curiosas sobre todas as polêmicas que nós, humanos, somos capazes de produzir on a daily basis.
(1) Para combater um comportamento opressor, muita gente se posiciona com uma conduta igualmente opressora. Sem margem de negociação. Pé no peito mesmo. All in. Como se você só pudesse discordar de um determinado lado concordando integralmente com o outro. Como se você só pudesse estar certo se o seu certo for o que o outro entende como certo. Chamo isso de absolutismo opinativo.
(2) Nós temos uma capacidade incrível de dar voz aos imbecis. É só olhar a timeline. Quando a notícia é ruim, a gente amplifica e compartilha, compartilha e compartilha. De preferência, acompanhada de uma série de adjetivos e predicados. O que é ruim precisa ser discutido? Tanto assim? O quanto estamos exatamente contribuindo e estimulando um debate e o quanto estamos dando mais voz e audiência para quem / o que deveria ter seu chorume ofuscado?
(3) Ao mesmo tempo, lembro da frase do Martin Luther King: “o que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética… O que me preocupa é o silêncio dos bons”. Quando isso acontece, faço uma grande cara de “Ué?!”. Como saber quando é o caso de observar e absorver e quando é o caso de ~causar muitão~?
(4) O culto à polêmica. Parece que estamos criando uma forma de existir e se expressar inflamada. Os caça-cliques adoram quando isso acontece e a gente vai lá e cai como um patinho. Odiamos sensacionalismos, adoramos o Sensacionalista. Tenho no meu feed uma meia dúzia de gente que tem pelo menos uma treta por dia. Quase consigo enxergar essas pessoas acordando e, enquanto preparam o café, se perguntando qual vai ser a deixa do dia para criar um “causo” e, com isso, garantir um bom número de likes, comentários e engajamento. E, com isso / por isso, procuram o menor detalhe para fazer dele um incêndio.
Tá, e? E daí que ainda é quarta-feira, mas já temos dois assuntos maravilhosos para ilustrar a loucura comunicativa que é a nossa vida híbrida on/off e, por tabela, reflexo da nossa era colaborativa/destrutiva.
Primeiro foi o texto da Ruth Manaus, sobre a geração que encontrou o sucesso no pedido de demissão. Daí veio a Yasmin Gomes para dizer que a vida não é assim, não, querida. Enxergo pontos muito válidos em cada um deles. O texto que me representa seria um terceiro, entre os dois. Mas arrisco dois comentários: (1) muitas vezes pesa mais O TOM do que você está dizendo do que o que você está dizendo. Nesse sentido, não gostei da parte debochada do texto dois que “ao ler esse trecho em voz alta para meus colegas de trabalho, quase tive cólicas de tanto rir. Só pode ser piada, né!?”. Daria para colocar isso de um jeito menos agressivo talvez? Ou a agressividade está só na minha interpretação? Ou, ainda, teria a Ruth sido mais feliz se tivesse feito um disclaimer alertando que o texto dela era identificável para apenas uma parte da população? Afinal, são duas realidades que coexistem. Com seus prós e contras. (2) Algum amigo, que eu infelizmente não lembro quem, fez um comentário muito saudável, alertando que o texto um diz respeito a uma classe de privilegiados e que não há problema nisso, desde que os privilegiados tenham ciência da sua “condição” e façam algo útil / produtivo -para o mundo- com isso. Concordei.
E hoje fomos impactados avassaladoramente com a foto da Cléo Pires e do Paulo Vilhena na campanha “Somos Todos Paralímpicos”. Perdi a conta de quantos funcionários de agências compartilharam a matéria questionando a podridão, veja só, das agências que tem ideias como essa. E dá-lhe textão sobre representatividade, chuva de likes e o caralho a quatro. Em fevereiro, a Revista TPM fez uma capa com a atleta Cláudia Santos e, na ocasião, não vi a mesma solidariedade e apropriação do assunto, não. Onde estavam os cagadores de regras dando a escala que o assunto sugeria? Sobre isso, prefiro passar a palavra para duas pessoas muito mais respeitáveis do que eu: o Marcelo Rubens Paiva, que pontua a provocação da campanha (alcançada com sucesso) e o Gilberto Dimenstein / Catraca Livre, que mostrou que, ao emprestar sua imagem para uma polêmica, os atores fizeram muito mais do que as pessoas que estão reclamando.
O que podemos tirar de bom de tudo isso? Essa é a principal pergunta nesse texto cheio de perguntas. Eu (eu, okay?) acho que tudo isso mostra como as redes sociais expõem a nossa (nossa, okay?) hipocrisia. Mas também acho que podemos trazer as discussões, em geral, de uma forma mais empática. Já tem muita gente vendendo empatia sem praticar a empatia. Afinal, vamos nos amar ou vamos só achar bonito (e clicável) o lambe-lambe falando de amor?
Quero encerrar esse desabafo “I couldn’t help but wonder” cheio de não seis — e arrisco dizer que o que mais falta hoje é justamente isso, a gente se permitir não saber em meio a tantas verdades e certezas — com duas frases que, essas sim, me representam:
“Eu não espero pelo dia em que todos os homens concordem. Mas espero pelo dia em que todos tenham feito no mínimo dois anos de análise.” (Nina Lemos)
“Eu não espero pelo dia em que todos os homens concordem. Apenas sei de diversas harmonias bonitas possíveis sem juízo final.” (Caetano Veloso)
Se você chegou até aqui, valeu. E desculpa qualquer coisa.