Precisamos falar sobre culpa

Tô na dúvida se a chamada tem que ser sobre culpa, performance, trabalho ou ser foda. Vamos ver.

A gente é criado para ser foda. Não é só a parada educacional e profissional, de estudar, estudar e estudar para trabalhar, trabalhar e trabalhar. Nem só a estética e social, de ser/estar bonita, apresentável, vestida adequadamente, promover um lifestyle e responder sobre seu estado civil sem o olhar complacente dos outros. Tem uns códigos invisíveis nesse processo todo.

Acho muito legal como tudo isso tem sido discutido de forma mais aberta e polêmica hoje em dia. Olha só, você não precisa ser isso e fazer aquilo. Mas decantar (assimilar, elaborar ou outra palavra psicologicamente aplicável) o assunto é um tanto mais demorado. Diria até que é um pouco mais do que isso: é sustentar a parada. Porque tem muita coisa que é ideologicamente bonita e encantadora de se ler, ouvir, discutir e acreditar, mas que não é viável, executável ou realizável na prática aka vida real.

Tem esse TEDx do Clóvis de Barros Filho que traduz um pouco do que estou tentando trazer à tona.

Nessa altura do campeonato, leia-se no auge dos meus 30 anos (brinks), já entendi que a felicidade não é uma constante e que algumas coisas são o que são. Ponto 1.

Daí eu estava nos últimos meses em uma rotina suicida de trabalho, freela, freela, trabalho, comer mal, dormir pouco e me cobrar muito. Não tô exagerando, não. Nunca fui o tipo fã de glorificar a vida sem agenda, nem de propagar discursos de pressão. Não era uma rotina infeliz, só não era uma rotina saudável. Eu deitava a cabeça no travesseiro, negociando se ia dar tempo de checar umas redes sociais, fazendo anotações no celular de coisas simples que eu não poderia esquecer (levar o edredom na lavanderia, comprar desinfetante no mercado, agendar manicure e exame médico) e já pensando em todas as demandas e to-dos do dia seguinte e, pronto, sem que eu percebesse já era 3am. O que significava que no dia seguinte eu acordaria pela metade. Foram dias longos sem folga. Com demandas pessoais e profissionais de sábado e domingo. Todo dia é/era dia útil.

Ainda bem que meus amigos já entenderam que minha presença é espaçada. Eu sinto tudo e amo todos, mas dificilmente a gente vai ser/estar tão presentes na rotina um do outro. Porque não dá, sabe.

E quando sobravam uns minutinhos livres, eu ficava na dúvida se começava a assistir a série que todo mundo estava comentando, se eu brincava um pouquinho no celular aquele jogo besta de combinar legumes e prender abelhas ou se entrava no Instagram para ver que todo mundo estava na rua fazendo algum rolê maneiro.

Tá, mas por que? Arrisco dizer que: porque eu queria, porque eu precisava e porque eu não sabia.

Daí chegou agosto. O mês do cachorro louco. O mês que eu testei minha capacidade de robotizar. E quando o mês se aproximou do fim, eu também estava definhando. Mal estar físico, oscilação emocional fudida e aparência zumbi.

Pedi arrego. Não consigo. Esse aqui é o meu limite físico e psíquico. Preciso pegar leve. Ou vai custar caro. De alguma forma eu sentia que tudo aquilo estava custando um preço alto, mas eu estava pagando para ver.

Então chegou setembro. Setembro começou maroto, apontando para bons ventos. Vou conseguir redimensionar a rotina de um jeito suave. Vai ser lindo. Vida mara, você começa oficialmente agora.

Mas não. Ou melhor, não exatamente. Estamos chegando em novembro, posso comemorar ajustes saudáveis na rotina e conquistas pequenas disso e daquilo, mas também percebo a sequela e o efeito colateral do não-para-não-para-não-para-não. Cada vez que eu me vejo disponível, eu também sinto uma culpa enorme. Como se um alerta mental me puxasse dizendo “tem certeza que a gente vai poder curtir de boas assim? Será que isso não quer dizer que daqui a pouco vai vir um tsunami com uma avalanche monstra de coisas para fazer?”. Entrei em um estado de alerta constante always on.

Nessas horas você até repara em quem realmente se preocupa contigo. Aquele “tá tudo bem?” genérico, em que a pessoa já sabe o que vai falar em seguida ou aquele “tá tudo bem?” interessado em saber qualquer merda que for sair da sua boca.

Você filtra também quem quer sua presença e pra que. Vamos nos ver, preciso te pedir um favor. Vamos nos ver, preciso de você para me sentir melhor. Vamos nos ver, preciso conferir se você tá parecida com a foto. Vamos nos ver, hoje eu tô aceitando qualquer companhia.

Isso tudo sem falar na parte (minha) que vai lá pra longe e fica devaneando entre a saudade de um dia bom a oceanos de distância ou de como vai ser o plano tático para fazer isso voltar a acontecer um dia de novo. Se é que…

O fato é que eu estou com mais tempo do que antes e tenho conseguido encontrar mais as pessoas que eu quero bem e me permitir sentar no sofá e negociar com o Tobias o que vamos assistir, mas… Ainda não rolou a sensação de satisfação, de achar que está tudo bem em não fazer nada.

Semana passada eu estava no Rio, no topo do morro com dois amigos, em uma tarde linda de folga e feriado, ouvindo umas músicas que eu não lembrava que existiam, estava sol e as pessoas estavam curtindo estar ali. Eu também estava ali, mas tentando assimilar o que era estar ali. Isso é mesmo possível? Permitido? Posso fazer isso? Posso me permitir isso?

Tipo agora. Tô aqui escrevendo esse texto, mas a cabeça já tá pensando que tem que fazer mala, checklist para não esquecer de levar o carregador, pensando que horas de domingo vou ao mercado, fazer uns textos do trabalho e… Percebe? O loop? O automático?

Não diria que é uma queixa. É um anseio. Um anseio de conseguir ser/estar presente e isso ser suficiente. Será que a gente consegue?

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