E, de repente, todos conhecem Dunkirk

O cinema tem o curioso hábito de nos apresentar a história nunca antes contada. Não que de fato seja algo obscuro e que não esteja nos livros, mas acontecimentos que por qualquer motivo são ignorados pela maior parte das pessoas. Por mais ficcionalizado que possa parecer, ao menos acabamos por descobrir que coisas, às vezes incríveis, às vezes terríveis, fizeram (e ainda fazem) parte da nossa história.

Christopher Nolan (“O Grande Truque”) nos apresenta a história da retirada de tropas inglesas e francesas da fracassada batalha de Dunquerque. E o cinema consegue criar a atmosfera de uma guerra de forma incrível. É, talvez, a forma mais expressiva para retratar os terrores de uma guerra. Nisso não há o que negar, Nolan acerta. E acerta como poucos. É um dos exemplos (posso citar ainda “O Resgate do Soldado Ryan” e “Nascido para Matar”, mas imagino que outros filmes entrem nesse grupo) que a experiência criada no cinema jamais será aproveitada de igual forma numa tela de TV.

Assim, é inquestionável que o grande mérito do diretor britânico está em jogar o público na crueza do conflito. A capacidade de criar cenas enormes, com significados que ultrapassam qualquer diálogo interminável é assustadora. Talvez um dos mais interessantes exemplos que a fala pode ser resumida ao mínimo, sem se perder em quase nada.

Ao mesmo tempo Nolan não tenta recriar a experiência de uma filme mudo. Aliás, não poderia ser mais distante disso. O filme nos apresenta um equilíbrio fascinante entre silêncio e barulho, que criam a atmosfera de tristeza, dor e violência que tão bem resumem e explicam uma guerra.

E é assim que esse filme deve ser visto, mais como uma experiência do que como um lazer. Aí entra o recurso utilizado. Gravado com película de 65 mm, o diretor utiliza incríveis panorâmicas da praia, permitindo uma compreensão total do que está acontecendo (em diversos momentos nada, o que aumenta a aflição). Ao mesmo tempo somos colocados em cenários claustrofóbicos, apertados ou lotados de pessoas, mas temos noção de todo o espaço.

A mesma experiência é apresentada durante as cenas de combates aéreos. O espaço apertado onde estão os pilotos, a perseguição no ar, a queda. Tudo é apresentado de forma intimista, o que Nolan sempre soube fazer muito bem.

Mais uma vez, é importante ir ao cinema esperando uma experiência que utiliza dos recursos audiovisuais, e não um filme convencional. O roteiro é um guia para as cenas, as personagens são planas (há uma exceção e algumas que chegam próximo disso), a trilha de Hans Zimmer continua tão minimalista como nas parcerias anteriores entre compositor e diretor. Mas não são problemas, apenas uma opção.

A guerra é certamente uma das experiências mais cruéis e terríveis que o ser humano se permite ter. E, por vezes, nos permitimos valorizar algumas mais do que outras. A batalha de Dunquerque já havia sido recontada anteriormente no cinema (“O Drama de Dunquerque” de 1958), mas até mesmo o cinema parece escolher o que fica para a posteridade. Nolan reapresenta a história. Acerta em ignorar a brutalidade do conflito e nos apresentar a brutalidade da luta pela sobrevivência. E nos entrega uma experiência interessante dentro de um bom filme, ou vice-versa.

Nota: 7,5

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