Tóquio Proibida: entre o excitante e o corrupto da capital japonesa

Lembro-me da primeira vez que tive contato com um livro do chamado jornalismo literário. Estava andando numa livraria, sem compromisso e nem a pretensão de comprar algo. Caminhava apenas para passar o tempo. Entre uma prateleira e outra me deparo com uma sessão de livros promocionais, um me chama a atenção (sem nenhum motivo aparente): O Napoleão do Crime. O livro narra a história da vida de Adam Worth, o mais notório criminoso do século XIX.

Adam Worth, o homem que inspirou a criação do Professor Moriarty

Como um amante de literatura policial, e com um preço absurdamente irresistível (saudosos R$11,00), a compra foi tão rápida quanto a leitura posterior. Mal sabia eu, mas ali surgia uma paixão que anos mais tardes só iria se intensificar cada vez mais.

No universo literário, assim como no universo jornalístico, para prender um leitor é preciso muito mais do que saber contar uma história. É preciso, antes de mais nada, saber criar (ou apresentar, no caso do jornalismo) boas personagens. Em 1965, quando Truman Capote lança o contagiante A Sangue Frio, estava mostrando ao mundo como fazer jornalismo através da literatura.

Anos se passaram. Conhecemos Gay Talese, Jon Krakauer, Richard Lloyd Parry, Svetlana Aleksiévitch e tantos outros. Se a literatura é influenciada pela vida real, esta pode ser narrada de forma literária. O casamento funciona e não faltam obras que nos provem isso. Talvez porque há um pouco (pra dizer no mínimo) de arte no cotidiano. Mas no fundo, uma história bem contada é sempre mais interessante do que informações compiladas e apresentadas em, teórica, ordem de importância.

Svetlana Aleksiévitch

Passados alguns anos, eis que estava eu, novamente andando sem compromisso. Dessa vez na feira de livros da UFPR. Entre uma olhada e outra (mais uma vez sem pretensão, e seguindo alguns preciosismos que a vida se alegra em nos oferecer) me deparo com um livro em especial que me chama a atenção. A capa com uma extravagante arte que, não a toa (nunca é, eu sei, mas sempre caio nessa), lembrava o visual noturno e extremamente urbano do Japão. Numa lida rápida da sinopse decido, ali mesmo, que seria mais um livro na minha estante.

Assim como em O Napoleão do Crime, a leitura foi rápida. Primeiro porque o livro em questão abordava um tema que sempre me interessou: a Yakuza. Segundo porque a narrativa é tão ágil e intensa que tornava-se impossível largar o livro. A forma como eu fui colocado de modo tão íntimo no submundo do crime no Japão, misturado com a descrição do cotidiano (pessoas jantando depois de um longo dia de trabalho) fizeram de Tóquio Proibida, de Jake Adelstein, um dos livros mais espetaculares que eu já li.

O autor narra a vida do submundo do crime no Japão de forma pessoal e intensa. A impressão que se tem, é de que o livro poderia ter sido escrito à quatro mãos: por Martin Scorsese e Yasujiro Ozu. De Scorsese, a semelhança vem do ritmo intenso e pornográfico do mundo do crime. Adelstein nos apresenta um mundo cruel, mas que convida o leitor a querer se aprofundar. Você sabe que aquilo é errado, mas quer se envolver. De Ozu, o que temos é a vida privada do Japão. Nós entramos nas residências, escolas e praticamente qualquer espaço privado. É um retrato que mistura o cotidiano com o indesejável.

Ao mesmo tempo, o leitor precisa estar ciente que a obra é autobiográfica. As páginas narram o começo da carreira de jornalista de Adelstein. O início no prestigiado jornal japonês Yomiuri Shimbun, começando já no jornalismo policial, cobrindo crimes pequenos e locais. Com o tempo, conforme torna-se amigo dos policiais de Tóquio, o jornalista começa a ter maior contato com a Yakuza, a máfia japonesa.

Jake Adelstein

A narração tem um ritmo intenso da primeira à última página. Dividido em três partes, o livro inicia com a Yakuza intimando Adelstein a se retirar do Japão, com ameaça de tortura e morte dos amigos e parentes, além dele próprio. A partir daí temos toda a evolução na carreira, com ele saindo da faculdade e aguardando o contato com o Yomiuri para ingressar na carreira. A evolução profissional enquanto ganha experiência e confiança. O preconceito sofrido por ser estrangeiro (Jake Adelstein nasceu e foi criado nos EUA, tendo ido ao Japão para cursar jornalismo) e a formação de uma família.

A ameaça que abre o livro é motivada por uma investigação que Adelstein faz sobre o tráfico de pessoas. Uma das cruéis realidades da terra do sol nascente, o livro mostra o quanto é comum mulheres serem capturadas pelos mafiosos e serem vendidas como prostitutas, dentro e fora do Japão. Muitas são convencidas por empresas de fachadas, que prometem uma vida de luxo e diversão, mas que esconde a verdadeira e cruel realidade.

Há também as pessoas que são sequestradas para terem seus órgãos doados para chefes da Yakuza. A narração beira o irreal e mostra que, diferente da ficção, as pessoas responsáveis por isso são nada monstruosas como o cinema nos ensinou ao longo dos anos.

Misturando o sinistro com o incrível, Adelstein tem um ritmo maravilhoso, que pode conquistar os leitores, dos mais preguiçosos aos mais experientes. A obra ainda conta com passagens muito pessoais, incluindo um capítulo inteiro feito como homenagem à uma colega. O capítulo não influencia em nada na história, mas é escrito de forma tão íntima, que facilmente pode levar o leitor às lágrimas.

Seja como um relato jornalístico ou como uma leitura sem compromisso, Tóquio Proibida tem a capacidade de segurar o leitor. Sem buracos ou fios soltos, é um livro que mostra a dura realidade do jornalismo policial/investigativo. Revela um lado pouco mostrado, apesar de conhecido, do Japão. Chantagens, ameaças e traições são usados como arma por todos e a todo o momento, deixando o leitor, muitas vezes, sem saber quem é (se é que há) o mocinho e o vilão.