“Hibisco Roxo” e o perigo da história única

Comecei e terminei a leitura de “Hibisco Roxo”, uma das primeiras publicações da autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, sem saber muito bem o que pensar. De início, achei que seria um livro como outro qualquer, com uma história legalzinha que me fizesse abrir a mente sobre a conjuntura político-social Nigéria. Foi só depois de colocá-lo de volta na estante que percebi o quanto é significativo: “Hibisco Roxo” é o retrato do perigo da história única, tópico da palestra TED de Chimamanda, disponibilizado abaixo:

O livro abre com a contextualização: Kambili, a protagonista, é uma adolescente que cresceu numa família de classe média alta extremamente fechada, vivendo sob uma história única.

Eugene, seu pai e chefe da família, era um homem extremamente religioso, dono de fábricas e de um jornal de oposição ao governo. Apesar de Kambili vê-lo como um exemplo a ser seguido, ele, na verdade, era um personagem abusivo. Usava métodos físicos violentos como forma de punição para a família inteira usando a religião como justificativa. Contudo, para a protagonista, que nunca tinha entrado em contato com outras histórias, aquilo era considerado normal. Naquele microcosmos, quem reinava era seu pai.

O patriarca tinha poder tanto no microcosmos familiar quanto na comunidade. Paralelo a isto, durante seu TED, Chimamanda argumenta que a história única tem a ver com o poder. No caso do livro, Eugene o exercia diariamente de acord0 com os moldes de Chimamanda:

“É impossível falar sobre a história única sem falar do poder. Há uma palavra, uma palavra malvada em que penso, sempre que penso na a estrutura do poder no mundo. É ‘nkali’. Um substantivo que se pode traduzir por “ser maior do que outro” .

Até então, a identidade de Kambili tinha se restringido a ser uma menina que não podia socializar com suas colegas do colégio cristão, que sempre devia ser a primeira de sua turma e uma devota à religião ocidental branca, mesmo que por vezes não se identificasse com aquilo que seguia (em especial o Jesus loiro que estava pendurado no altar da igreja). Sua submissão tinha como origem o medo da punição e, claro, a história única.

Paralelo à identificação ocidental imposta sobre Kambili, Chimamanda argumenta que

“o que isto demonstra, penso eu, é como somos impressionáveis e vulneráveis a uma história, particularmente enquanto crianças. Como eu só lia livros em que as personagens eram estrangeiras, eu convenci-me que os livros, pela sua própria natureza, tinham de incluir estrangeiros, e tinham de ser sobre coisas com que eu não me identificava pessoalmente.”

Entretanto, a narrativa toma outro rumo quando Kambili e seu irmão Jaja são mandados para a casa da irmã de seu pai, Ifeoma, para passar alguns dias. Lá, eles têm contato com outras histórias completamente diferentes das suas. A começar, a tia é professora de universidade e, por conta de seu salário baixo, tem de viver em uma casa mais simples, racionando comida e energia elétrica. Ela e seus três filhos têm visões muito críticas da sociedade.

No TED, Chimamanda diz que “o perigo da história única enfatiza o quanto somos diferentes ao invés de como somos semelhantes.”

A partir desse contato, pela primeira vez aquelas pessoas diferentes com quem os filhos de Eugene não se identificavam e só viam por algumas horas — e apenas no Natal — se mostravam ser seus semelhantes; sua família além do microcosmos. Aos poucos, a história única começava a se desfazer dentro de Kambili, e sua identidade a se desenvolver.

Ao contrário da casa de Eugene, no lar de Ifeoma não havia métodos rígidos ou violentos. Ao entrar em contato com aquela história, Kambili e seu irmão Jaja perceberam que, apesar de seus parentes não terem a mesma renda e privilégios de seu pai, eram mais felizes e, acima de tudo, acolhedores. Pela primeira vez, a protagonista não se via sob um “amor” abusivo e violento, mas em um ambiente leve.

Uma personagem muito interessante é Amaka, a filha mais velha de Ifeoma. A prima critica abertamente Kambili, sua família, hábitos e religião, representando tudo aquilo que a protagonista aprendeu a não se relacionar. Ainda assim, é com ela que Kambili tem a relação mais próxima e afetuosa. Claramente, a prima representa a mudança de história que tem a maior influência.

Por fim, o rompimento da história única de Kambili constrói sua identidade e a permite ter sentimentos que antes não existiam, como afeto, raiva e, principalmente, coragem. Este último se desenvolve em especial após seu microcosmos ser destruído (sem spoilers!).

Finalmente, Chimamanda encerra seu TED com o mesmo raciocínio no qual a identidade de Kambili se apresenta ao final do livro:

“Quando rejeitamos a história única, quando percebemos de que nunca há uma história única sobre nenhum lugar, reconquistamos uma espécie de paraíso”.