Apanhador não tão só

Dá pra separar a obra e a vida pessoal do artista? A questão tem sido levantada repetidas vezes nas redes sociais e, na semana passada, um texto colocou a banda gaúcha Apanhador Só na fogueira da vez, com reações distintas. Foi um post-desabafo em que Clara Corleone, ex-esposa do guitarrista Felipe Zancanaro, retratava o relacionamento dos dois como abusivo.
O caso é significativo porque atinge um público, à semelhança da banda, tradicionalmente preocupado com questões sociais, como o machismo. O post veio no dia do show de estreia do terceiro disco da Apanhador Só, “Meio que Tudo É Um”, na Casa de Cultura Laura Alvim, no Rio de Janeiro. A apresentação ocorreu sem maiores percalços, mas o segundo show seria realizado no mesmo local do dia seguinte. Enquanto isso, o post viralizava.
No tribunal do Facebook, a banda foi condenada. A variação mais positiva dos comentários, a maioria de mulheres, era “eu gostava deles”. Na página do evento, fãs anunciavam a venda de ingressos comprados antecipadamente. Para elas e eles, não só o show, mas a banda foi cancelada. Não faltaram também os que questionaram o relato ou a reação viral - a maioria homens.
A repercussão forçou uma mudança de planos. Para manter o compromisso com os fãs que foram ao teatro, o vocalista Alexandre Kumpinski fez o show sozinho em voz e violão. No local, o cenário não era de terra arrasada como se poderia esperar. Enquanto o balcão superior estava quase vazio, na plateia se viam poucos assentos livres.
E quem foi queria não só relevar o acontecido — pelos comentários, a impressão era de que a maioria estava ciente — , mas dar apoio ao vocalista. Isso pode ser atribuído à decisão de não expor o protagonista da polêmica. Mas também é preciso lembrar que a mudança de formato não foi anunciada a tempo, e os presentes estavam lá na expectativa de ver a banda completa.
Um abraço
Alexandre entrou sob aplausos, foi à frente do palco e se abaixou, como que tentando se aproximar. “Eu queria começar perguntando se alguém quer conversar, falar alguma coisa, ou se a gente parte pras músicas?” A única manifestação mais exaltada foi de uma fã: “música! A gente quer te ouvir cantar.”
E assim foi. O show começou com “Teia”, uma canção que reflete — como o novo disco em geral — sobre conflitos. E exceto essa e a última, “RJ Banco Imobiliário”, Alexandre deixou para o público a maior parte da escolha do repertório. Na terceira, “Um Rei e o Zé”, o cantor já deixava a plateia (se alguém quer saber, de gênero bem dividido) cantar sozinha.
Embora várias canções de “Meio que Tudo É Um” tenham sido apresentadas, o show foi menos de apresentação do disco e mais de alguma outra coisa. Em mais de 20 músicas, o povo pediu músicas, cantou, riu e aplaudiu. Aproveitando o ambiente pequeno e respeitoso, Alexandre tocou fora do microfone, depois voltou. Comentou a falta da banda. Pediu ajuda da plateia em outros momentos.
Levou mais da metade do show pra alguém pedir “Linda, Louca e Livre”, canção que fala de liberdade em um relacionamento e foi o estopim do post-desabafo. Cantor e público, com algum constrangimento, concordaram que não era o momento. Perto do fim, foi a vez de Alexandre desabafar. “Tava sendo um dia terrível, talvez o pior dia da minha vida, e eu tô me sentindo abraçado aqui”.
Segue o debate
Ainda que a apresentação tenha acabado bem, a fase da Apanhador Só como objeto de debate — e repúdio — ainda está acontecendo. Algumas horas antes do show, a banda anunciou também no Facebook a suspensão das atividades “por ora”. Esse post, como era de se esperar, também virou fórum. O desabafo continua gerando reações na internet, e envolve praticamente todo o cenário independente brasileiro.
Seja qual for a abordagem que prevalecer quando a questão “obra vs. vida pessoal” estiver mais amadurecida, o que fica claro é que a relação entre músicos e público, pelo menos os preocupados com questões sociais, não vai voltar a ser o que era antes das redes. Uma parcela do público sempre vai estar pronta a exigir que, antes de mais nada, o músico não pise na bola.
