A amizade no Brasil

Por muitos anos, tive amigos como todo mundo os tem no Brasil: uma roda de tigres canibais prontos a devorar-se uns aos outros, esperando o menor sinal de fraqueza, lançando inveja e ressentimento sobre os que parecessem destacar-se, aproveitando-se cruelmente dos mais vulneráveis.

Por alguns desses anos, meus amigos foram pessoas muito mais inteligentes que a média do país. Alguns deles serão gente importante, em breve, e não sem merecimento. Não obstante, excepcionais como fossem, seu comportamento social não era tão diferente.

Às vezes as pessoas nos entendem mal. Quando isso acontece, elas nos respondem de modo sério, com objeções ou perguntas, e esperam por uma resposta. A expressão em seu rosto pode ser de perplexidade ou até de ira, mas elas querem que nós esclareçamos a matéria da controvérsia.

Aqueles que chamamos de amigos, porém, são frequentemente os que menos querem compreender o que dizemos, porque lhes interessa deformar a mensagem para que ela cumpra outro propósito: o de humilhar-nos. Talvez eles digam a si mesmos que é tudo brincadeira, coisa inocente, descontração. Fica frio, Falcón. Mas essa é uma desculpinha vagabunda, nada mais.

Só quando cresci e assumi uma profissão relativamente pública, fazendo assim meus primeiros inimigos, é que percebi quão mentirosas eram essas justificativas: meus desafetos mais odientos tinham exatamente a mesma atitude, e evidentemente não tentavam mascará-la como “brincadeirinha”. Quando você não pode distinguir entre o comportamento de um amigo e de um sujeito que está tentando destruir sua reputação, o que isso lhe diz? Que você está no Brasil.

É previsível que um inimigo deforme maliciosamente o conteúdo das nossas declarações, para fazer troça e chamar o ridículo sobre nós. É compreensível que um inimigo, tomado pela fúria, nos repreenda em público sem antes nos perguntar se sua raiva não é apenas um mal-entendido. Mas um amigo? Alguém que supostamente nos ama e nos respeita como a si mesmo?

Não, não digo que não nos amem e respeitem como a si mesmos; mas talvez eles se amem e se respeitem muito pouco e, não sendo amigos de si mesmos, não consigam sê-lo dos outros. Ademais, é sem dúvida complexo o processo que os leva a reproduzir, mais ou menos inconscientemente, esse rito macabro que é a execração mútua dos amigos.

Contudo, e embora não seja o caso de guardar contra eles nenhuma mágoa, porque são cúmplices desse estado de coisas na mesma medida em que são suas vítimas, é preciso ter consciência de que submeter-se ao que estamos chamando de amizade é tomar parte num ritual quasi-satânico, em que o amor é usado para justificar o seu contrário, numa inversão completa da sensibilidade normal.

Quem não nos ama, não pode ser nosso amigo. Quem não nos respeita, não pode ser que nos ame. Quem não nos trata com respeito, é que não nos respeita. Aceitar o convívio com pessoas que não atendem a esses requisitos, e pior, chamá-las de amigos, é um primeiro passo para enlouquecer. A solidão completa, se for a única alternativa, ainda é preferível para o restabelecimento da sanidade; pois quando estamos sozinhos podemos olhar para os que nos maltratam e declamar, aliviados, a verdade nua e crua: não são meus amigos.