A Entrevista de Lula e o Duelo das Narrativas

Rubem Mayer
May 1 · 4 min read

Assistir a entrevista de duas horas do ex-presidente Lula, a primeira desde sua prisão em 2018, é uma obrigação de qualquer pessoa preocupada com os rumos que a política brasileira tem tomado.

Gostando ou não de seu governo, concordando ou não com suas opiniões, é inegável a importância de sua figura no cenário atual. Lula ainda é, para uma esquerda generalista, a maior esperança de um retorno a dias favoráveis, e ainda é, para a massa que apoia o atual governo, o maior inimigo a ser esmagado.

Para quem acha que “opinião de preso não tem importância”, é importante lembrar que o presidente eleito foi um dos primeiro a comentar a entrevista de Lula.

Mas o mais impactante dessa entrevista foi o aprofundamento da narrativa. A defesa do vício do processo contra a de completa culpa é o que vai ditar os próximos passos da disputa pública.

Vamos, por um minuto, deixar de lado a discussão se Lula é culpado ou inocente em seu processo (dado que tal decisão ainda é alvo de discussão, mesmo entre juristas).

Narrativas em Confronto

Para o atual governo, eleito em cima de ataques, de um discurso de revanchismo e de “fim do esquerdismo”, Lula é um inimigo e alvo óbvio. Apontar no ex-presidente todas os ataques e tentar aproximar a culpa de sua figura é uma estratégia clara, e “dar um rosto” ao seu alvo é melhor do que atacar apenas um partido oponente (no caso, o PT).

Para aqueles que não concordam com o atual governo, Lula ainda é a figura com maior capacidade de angariar votos e vencer uma eleição com propostas mais próximas de seus interesses. Haddad, apesar de um bom crescimento no segundo turno, foi derrotado. Marina teve desempenho péssimo. Ciro é um eterno terceiro colocado. O ex-presidente, antes de ser preso e ter seus direitos políticos cassados, por outro lado, estava em primeiro isolado nas pesquisas.

Agora, some isso as narrativas (ainda afastando o conceito de inocência ou culpa). Por falta de denominação melhor, os bolsonaristas acreditam que Lula é o responsável pelo estado do país e que, por crimes de corrupção seus e de seus colegas de partido, merece estar preso e fora de qualquer disputa eleitoral. Os lulistas acreditam que Lula é a única opção possível nesse cenário caótico que estamos enfrentando, e que apenas seu poder conciliador e sua capacidade de ganhar eleições podem interromper o ciclo de animosidade que estamos enfrentando.

Ignorar o poder da narrativa no cenário político é inocência. A atual conjuntura, com crises e embates abertos entre os poderes, infelizmente, faz com que a narrativa tenha mais importância do que as regras do jogo em si.

Jurídico ou Político?

A minha exclusão de culpa ou inocência nesse artigo não é para exercitar um cenário hipotético. Basta lembrar do Impeachment de Dilma Roussef. A presidente sofreu um Impeachment tendo como pivô jurídico as pedaladas fiscais. Tal recurso foi usado por todos os presidentes anteriores e pela maioria dos governadores, sem nenhum contratempo jurídico. Bastou o Impeachment passar que as tais pedaladas foram aprovadas como um recurso legal.

Portanto, infelizmente para nós, mais importante do que a razão jurídica, jurisprudência e definições técnicas, o que está valendo mais é o poder das narrativas (nesse caso, a narrativa era “a presidente está destruindo o país e precisa ser destituída”).

Voltando ao nosso cenário atual, agora imagine que Lula, através de decisões e manobras jurídicas, consiga concorrer ao pleito em 2022.

Segundo a narrativa da esquerda, um herói que aguentou a prisão mesmo sendo inocente, e que agora volta nos braços do povo a luta por um país mais igualitário.

Segundo a narrativa da direita, um bandido que usa os mecanismos do poder jurídico para concorrer injustamente a eleição, com a intenção de voltar ao poder para perpetuar sua corrupção.

Se o governo atual continuar no ritmo que está, a primeira narrativa vence com folga, facilitando as tais manobras jurídicas. Não importando muito culpa ou inocência.


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Rubem Mayer

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