Bolsonaro e o Antirrepublicanismo

Rubem Mayer
May 31 · 3 min read

Os protestos do dia 26, marcam um momento perigoso dos desdobramentos políticos. A própria realização de um “protesto a favor do governo” denota a situação conturbada que vivemos.

O presidente, antes interessado em participar do movimento, foi aconselhado e mudou de opinião, pois não havia como sair vencedor. Se as manifestações fossem um sucesso, o clima de enfrentamento entre poderes aumentaria. Se fossem um fracasso, seria mais um sinal de fraqueza perante o Congresso.

O mais grave contudo foram os objetivos do protesto. Num primeiro momento as pautas estavam difusas, mas agressivas: se falava de “fechar o STF e o Congresso”, e esse clima bélico afastou muitos apoiadores. Depois, tentando angariar mais adeptos, as pautas foram para a aprovação dos projetos do Executivo: O Pacote Anticrime e a Reforma da Previdência. Dado que são as primeiras reformas significativas que o presidente tenta emplacar, é o óbvio “Deixa ele Governar” ou “Tem que torcer para dar certo”.

Repare que na tentativa de maquiar as intenções, as pautas foram reescritas, mas objetivo é o mesmo: O antirrepublicano silenciamento dos demais poderes.

O Viés Antirrepublicano

Como já tinha dito no texto Bolsonaro e a Democracia em Xeque, essa é uma tática dos autoritários do presente: ruir as Instituições aos poucos, para que o processo ainda tenha resquícios de legitimidade, embora o produto final seja apenas a caricatura de uma Democracia.

Tudo indica que os protestos não conseguiram pressionar a Câmara o suficiente para mudar o rumo das conversas, mas num exercício hipotético: se tivessem conseguido, não seria uma clara intimidação? Por mais que o Presidente não tenha participado, não teria sido essa sua intenção ao inflamar a população sobre sua dificuldade em governar?

E se os protestos tivessem silenciado o STF também? Se não existisse mais equilíbrio entre os três poderes, e o presidente agora tivesse, alheio ao trâmite político, a autoridade de definir tudo sem restrição, o que teríamos?

Seria possível definir como República?

É importante ter em mente que o “Governo”, como entidade, é a soma dos três poderes, não só o Executivo. Não é um segredo que os Três Poderes hoje estão em uma estranha queda de braço, mas o presidente inflamar a população em um protesto contra o próprio governo é perigoso. Enfraquece as instituições e dificulta ainda mais o diálogo.

Quando Bolsonaro iguala articulação com “toma lá, dá cá”, não há meio termo para a construção ou conversa. Ou a Câmara aceita as reformas ou está impedindo ele de trabalhar. Essa mentalidade binária afasta qualquer tipo de organização do governo e impede uma relação melhor com o Legislativo.

Tudo indica que a crise e o embate entre os poderes se aprofundará.

Rubem Mayer

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