Herói por um dia
We can be heroes, just for one day
Não ouço música durante as provas, apenas nos treinos. Não foi diferente na minha primeira maratona. Naquele dia quis observar cada detalhe das ruas de Buenos Aires. Ouvir conversas entre os corredores, o som dos passos, o apoio das pessoas, minha respiração. Manter o Ritmo.
Mesmo assim, sem fones de ouvido, uma música tocou em minha cabeça por mais de 42km.
Heroes, de David Bowie.
Ela reforçava em mim uma inútil alegria por estar fazendo algo extraordinário, ainda que sem sentido prático.
Como na canção me sentia herói por um dia. Não exatamente pela perspectiva de concluir a prova mas pela satisfação de ter feito tudo o que fiz para chegar até ali.
Naquele momento pude sinceramente compreender uma provocação do filósofo zen budista Alan Watts que há tempos me desafiava.
Para ele, ver a vida como uma jornada é uma fonte de sofrimento para o homem. Isso porque uma viagem presume a existência de uma linha de chegada, um ponto final.
Por outro lado, a vida deveria ser encarada de uma maneira mais lúdica. Para compreendê-la, então, melhor seria uma analogia com a música.
Você não ouve uma música esperando ansiosamente por sua conclusão, pelo seu final. Fosse assim, um concerto seria uma corrida para ver quem conclui a música mais rápido.
O ponto central da música é a própria música. Ela é apenas tocada.
Somos levados a crer que a vida é uma jornada e estimulados a perseguir o grande prêmio, seja o sucesso, a aposentadoria ou o paraíso após a morte.
Mas no final podemos descobrir que não era nada disso, que se tratava apenas de música. E que deveríamos ter cantado ou dançado enquanto a música estava tocando.
E lá fui eu cantarolando:
We can be heroes, just for one day
We can be us, just for one day…