Rubens Kignel
Jan 14 · 8 min read

INSTINTO, TECNOLOGIA E AMOR

foto de autor na Bienal de Veneza 2019
foto de autor na Bienal de Veneza 2019

Vamos começar nossa conversa a partir dessa introdução do filósofo italiano Umberto Galimberti:

A técnica tornou-se o sujeito da história, enquanto que o homem se tornou um operador dos aparatos técnicos. É difícil de entender? A técnica passa a ser uma subjetividade na gente.

Pois bem, de um certo modo pode-se dizer que a técnica é a essência do homem, pela simples razão que o homem não tem instinto, o instinto significa uma resposta rígida e sublinho o adjetivo rígido. Se dou um pedaço de carne a uma vaca, a vaca não a come.

Se ao contrário lhe dou um monte de feno, a vaca come. Ponto, rígido.

O homem não tem instinto porque não tem resposta rígida. Até o famosíssimo instinto sexual é tão pouco instintivo que eu — na presença de um impulso, de uma porção sexual posso me exprimir como um taco ereto, ceder a uma ordem, a uma infinidade de perversões — assim como posso também fixar-me uma meta não sexual a uma porção sexual, como disse Freud.

Numa operação de sublimação. Portanto não podemos dizer que o homem é um animal razoável, porque a ele falta a prerrogativa fundamental — que é o instinto.

Na medida que não tem o instinto, o homem é por natureza não harmônico verso a natureza, todos os animais sabem o que devem fazer, logo ao nascer. Depois de cinco minutos a bebê gazela sabe correr.

Nós precisamos de uma longa educação. Porque não somos organizados por instintos automáticos. O próprio Freud, que nos seus primeiros escritos utilizava o termo “instinct”, instinto, sucessivamente o abandona e utiliza o termo “trieb” em alemão, que em italiano traduzimos por “pulsione*”, (“*pulsar” em português)

Freud define que se trata de um pulsar com meta indeterminada. Ou seja, nada de instintivo tem o homem. Isso devemos ter bem presente porque se deve se ter presente para dizer que ao ser um ser faltante — por ser um ser não organizado e marcado por instintos — pode sobreviver unicamente graças ao fato de ter se tornado imediatamente técnico.

E esta técnica se revelou desde que o homem levantou um galho, porque sem ele não chegava até a banana, porque o braço não chegava lá. Graças à técnica, o homem pode sobreviver. Talvez por conta de sua carência, de sua ausência de instinto, teria desaparecido.

Estas coisas não digo eu, diz Platão, diz Tomás de Aquino, diz Kant, diz Nietzsche. O diz até o Freud, não é uma invenção. Portanto devemos abandonar a preguiça mental, para dizer que o homem é um animal racional, porque não é um animal, falta-lhe a característica típica dos animais, a propósito, o seu equipamento instintivo.

O homem sobreviveu graças à técnica, por instinto um leão não pode viver fora do Equador, se o levamos ao Polo Norte morre, o homem não tendo instinto é plástico, pode se adaptar a qualquer ambiente gradualmente.

E quando falamos de liberdade não devemos pensar em algo que vem dos céus. A liberdade não é nada além do efeito da ausência de instintos. Exatamente porque não tenho instinto, sou plástico, posso determinar a mim mesmo. Posso me mover em diversos sentidos.”

O que diz Galimberti nos faz ver o quanto a técnica é importante e participativa desde os tempos remotos, de outra forma talvez o ser humano não teria sobrevivido.

Contradizendo Freud e Galimberti, temos Reich que dizia de uma maneira simples e direta que duas pessoas na mesma sala, como psicoterapeuta e paciente são também dois animais se comunicando como animais.

O fato de Reich estimular a respiração, nos levando ao plano vegetativo, acionamos um estado animal, portanto pleno de instintos.

O de matar por exemplo, pleno e rude que ficou muito claro nos tempos de campanha eleitoral em que vários bodes expiatórios foram encontrados para que o povo depositasse seu ódio irracional e animal.

Como dizem pesquisas de psicólogos, sociólogos, filósofos: o voto não é racional.

Portanto o racional ou o mundo da técnica são tão importantes quanto o animal ou o mundo dos instintos.

A tecnologia tanto pode nos ajudar quanto pode nos atrapalhar. A internet e as redes sociais nos jogam num oceano pleno de ofertas e seduções, além dos próprios aparelhos. Facilmente nos deixamos atrair por seja lá o que for que nos tire de nosso foco ou desejo. Como disse Galimberti ou Freud: o desejo é mutante e o pulsar aponta para onde houver uma atração.

Tudo começou com o hipertexto, isto é a capacidade de ir associando assuntos de palavra em palavra. Sensacional e perigoso por se transformar facilmente num movimento incontrolável.

Aparentemente quando percebemos que facilmente nos enrolamos no Facebook, no Instagram, na internet e na televisão horas por dia podemos dizer que tem algo que vai além da razão que cria essa ligação.

Podemos dizer que existe uma patologia que passa pelo inconsciente ou pelo sistema sub-cortical (não consciente), mas também podemos dizer que essa ligação pode ser um excelente anti-depressivo para muitos, mas que cria dependência, como qualquer remédio.

A tecnologia veio para ficar, desde o dia que o primeiro galho ajudou um humano a pegar uma fruta numa árvore alta. Do galho ao tacape foi um pulo. Utilizado tanto para quebrar, se defender como também para atacar, matar, destruir ou construir.

O que vejo de maior ameaça vindo da tecnologia é que nos leve a uma perda do sentido de viver, uma perda de objetivos, uma perda de humanidade, e essa ameaça está se mostrando cada vez mais verdadeira.

A diferença entre a era do tacape e a de hoje: “o facão” que é uma ferramenta importante de trabalho no campo. Ao mesmo tempo virou uma arma. Foi distribuído aos milhões pela França para uma parte da população revoltada de Ruanda, os Hutus, provocando um enorme genocídio com o uso violento do facão.

Um tacape, um facão, ainda podem ser controlados, mas passaram a ser milhões ao mesmo tempo. O tacape e o facão evoluíram e passaram o bastão para a tecnologia nas redes sociais.

As revoluções culturais, industriais foram muito significativas, mudaram o mundo numa velocidade suportável.

A revolução tecnológica tem uma velocidade enorme. O que acontecia em 100 anos acontece em 5 anos, digamos assim. As imagens, palavras, que nos invadem de vários lugares do mundo, criam um caos em nossa mente, e com imensa facilidade nos tira do foco e do fluxo da vida, nos levando a uma perda do sentido.

O numero de suicídios entre os jovens aumentaram no Brasil e no mundo e uma das causas é justamente não encontrarem mais sentido na vida, caindo em depressão profunda.

Criar sentido envolve organizar os conteúdos da mente, integrando ação com uma experiência de fluxo unificada, razão e instinto. Se estamos atravessando aquilo que Dante chamou de Inferno, em que as tentações e seduções são enormes para nos tirar de nossos objetivos, fica muito difícil manter o sentido e consequentemente o significado do que fazemos.

Que inferno é esse a que me refiro?

Dante passeando e pensando na floresta negra percebe que três bestas ferozes estão lhe perseguindo, lambendo os dedos com antecedência. São um Leão, um Lince e uma Loba que representam entre outras coisas ambição, luxúria e ganância.

A vingança passa a ser o desejo de poder, sexo e dinheiro. Para evitar ser destruído por eles, Dante tenta escapar subindo uma colina.

Mas as bestas continuam por perto, desesperado clama por ajuda divina.

Sua prece é respondida por uma aparição: é o fantasma de Virgílio, um poeta que morreu mais de 1000 anos antes de Dante nascer, mas admirava tanto sua sabedoria e versículo que o escolheu como mentor.

Virgílio tenta reassegurar Dante: a novidade boa é que há uma saída da floresta negra. A má notícia é que o caminho é através do inferno.

E através do inferno procuraram o caminho, testemunhando enquanto passavam o sofrimento daqueles que jamais tiveram um objetivo, e ainda o pior destino daqueles em que o objetivo na vida foi de aumentar a entropia: os chamados pecadores.

A palavra “pecado” (do original grego “hamartia”) significa errar o alvo, falha em atingir a marca, falha em alcançar a finalidade para a qual se foi criado.

O pecado afetou a todos que vivem desde o início dos tempos. O pecado separa o homem do seu alvo. O pecado faz a humanidade precisar de perdão. Sem perdão, não há vida eterna, não há graça, e não há justiça.

Ambição negativa, luxúria e ganância são algumas das questões que nos levam a errar o alvo, e assim a perder o caminho ou a direção das coisas que fazem sentido nas nossas vidas.

A tecnologia veio para nos ajudar, nos apoiar e fazer crescer, para isso tem que estar a nosso serviço e não nós a serviço da tecnologia. Coisa que desaprendemos ao longo dos anos. A mesma coisa vale para a psicoterapia, que também precisa estar a nosso serviço, nos apoiando no processo de acompanhar o outro em seus sofrimentos e em sua felicidade.

Vocês sabiam que quando estamos trabalhando no computador, escrevendo ou lendo algo, ao mesmo tempo em que o email ou as redes sociais estão conectados perdemos dez pontos de QI de acordo com o pesquisador e professor Tal Ben-Shahar, PhD em comportamento organizacional na Universidade de Harvard e com formação em Filosofia e Psicologia também em Harvard.

Pensando de uma maneira simples qual seria o sentido da vida: poderíamos dizer que o sentido da vida é significar seja lá o que for, seja lá de onde venha, construindo um objetivo unificado que daria sentido a vida.

Victor Frankel, psiquiatra e sobrevivente de campo de concentração, conta a história de um paciente que num acidente quebra o pescoço e fica paralítico. O paciente descobre que quebrou o pescoço, mas o pescoço não quebrou sua vida que acabou se transformando numa vida plena de sentido.

Num segundo sentido a palavra “significado” pode se referir a uma expressão de intencionalidade, transformando a vida em um fluxo de atividade. Nós precisamos encontrar nossos desafios. As tensões dos desafios tem que se transformar em ação.

“Aquele que deseja, mas não age, produz pestilência” (William Blake).

Em terceiro lugar uma pessoa que conhece seus desejos e trabalha com o objetivo de conquistá-los, conhecendo seus sentimentos e pensamentos com ações congruentes, essa pessoa estará em harmonia interna. Esse processo se chama: “colocar sua cabeça no lugar”.

Colocar a cabeça no lugar organiza a vida de maneira que encontre um fluxo que permita focar em nossos projetos, de tal forma que perdemos a noção de tempo, idade e local. Estamos inteiramente afinados e integrados naquilo que precisamos ou desejamos, livre de repressão e de desvios, apesar de todas as tentações.

Ao usar a internet e seus apps, por exemplo o dispositivo de rolar as imagens no celular, ou rolar as imagens em seu computador pode levar a uma imensidão de possibilidades caóticas que nos afastam de nós mesmos, de nossos objetivos, nosso alvo.

Em vez de ser o capitão de seu navio, passa a ser um tripulante de navio alheio, com outra identidade que não a sua.

Assim as subjetividades vão nos ocupando, as subjetividades alheias passam a pertencer a nossa identidade, e vamos formando uma orquestra de músicos desconhecidos e o maestro fica sempre ensaiando e jamais se apresenta finalizado.

Outra problemática é o apego que a internet e as redes sociais provocam nas pessoas, alterando drasticamente a forma de se relacionar. De um lado positiva, de outro carrega um novo paradigma, o do distanciamento, da alienação, da falta de contato dos cinco sentidos, corpo a corpo sem intermediários.

Unir instinto e pulsão é colocar para funcionar de forma dinâmica cabeça, peito e barriga, mente, coração, movimento e emoções, cada um com suas qualidades que dão sustentação ao ser.

Nos encontramos durante a era contemporânea na pulsão, no intelecto, precisamos do instinto para recuperar nosso fluxo, nossa espontaneidade, nosso impulso mais profundo de viver como dizia Nietszche, o elã vital de Bergson, Connatus de Spinoza. Esforço, vontade de potência.

O amor é instinto e consciência: se você não sente não ama, se você não tem consciência não cuida daquilo que ama, a si mesmo ou ao outro.

Rubens Kignel

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