Cartaz de divulgação de A Chegada (Arrival, 2016)

A Chegada (Arrival, 2016) — Villeneuve utiliza linguagem para construir Sci-Fi realista.

O poder da comunicação.

A Chegada (2016) é um filme que vem para explorar uma particular vertente da ficção científica: o realismo. Ainda que filmes como Interestelar (Interstellar, 2014) e Gravidade (Gravity, 2013) tenham se calcado em estudos científicos e teorias físicas e astronômicas, nenhum deles consegue alcançar o ser humano tanto quanto A Chegada. Muito disso, talvez, se deva ao intenso contato que os próprios humanos (no caso a doutora Louise e o cientista Ian) tentaram manter com as formas de vida alienígenas. Sendo assim, A Chegada já desponta como um Sci-Fi a ser lembrado não só pela sua qualidade narrativa, mas pelo fato de conseguir (re)discutir a sociedade através dos conceitos de linguagem e comunicação.

Na trama, a linguista Louise (vivida por Amy Adams) é escolhida pelo governo americano para tentar entrar em contato com uma das 12 naves alienígenas que acabam de pousar na terra. A partir dessa premissa, desenvolve-se uma relação entre humano e extraterrestre, em meio ao caos e as várias duvidas que são levantadas no filme. Trabalhando ao lado do cientista Ian (Jeremy Renner) e do coronel Weber (Forest Whitaker), Louise passa a fazer descobertas significantes sobre a comunicação alienígena e os seus propósitos em contato com a raça humana.

Dennis Villeneuve, o mais novo queridinho de Hollywood, abre mão do seu cinema brutal e expositivo para fazer um filme misterioso, observador, quase melancólico. A Chegada tem ritmo desacelerado, mas não passa por desinteressante. Através do roteiro de Eric Heisserer, podemos acompanhar a evolução do contato entre as duas espécies, onde as duvidas sobre qual a finalidade das naves na terra e de onde elas vieram começam a ter as suas respostas desenhadas. Villeneuve, que conta aqui mais uma vez com sua equipe produtiva de primeira, abusa da fotografia fria em tons esverdeados e azulados de Bradford Young (o primeiro diretor de fotografia negro a ser nominado a um Oscar, vale ressaltar), contrastada com a sempre atmosférica trilha de Jóhann Jóhannsson, para criar um ambiente duvidoso, promíscuo, construtivo, onde as perguntas e as respostas atravessam a linha tênue de longe e perto.

Mas ainda mais do que causar curiosidade e mistério, A Chegada causa em nós uma sensação de urgência ao abordar de forma tão verídica um provável encontro da raça humana com o desconhecido. Ao armar uma zona de guerra que envolve China, Russia, EUA e outras nove nações, Villeneuve tenta nos fazer refletir sobre o quão longe e desconectados estamos, mesmo que inseridos na era digital. Ainda que, para isso, tenha que misturar sentimentalismos e “boas intenções” ao seu filme, o faz de maneira plausível, brincando com a boa fé do espectador. Para tal, conta com a edição fluida de Joe Walker, que dilui bem o seu quebra-cabeça temporal. E se A Chegada vem sendo comparado com Contato (Contact, 1997), obra essencial de Robert Zemeckis, é por que os dois filmes partem em busca de respostas plausíveis, ao alcance da compreensão humana.

E se A Chegada, ainda assim, pergunta mais do que consegue responder (ainda que busque por respostas palpáveis), fica uma última pergunta no ar: por que teria Amy Adams sido esnobado no Oscar? Mesmo que seja a força sentimental do filme (aquela mais difícil de digerir também), é Adams que carrega a trama pra frente, construindo uma personagem envolta de camadas, medos, anseios e mistérios. A cada decisão difícil, Adams é colocada a prova, emulando confiança e sensibilidade através de seu olhar curioso e corajoso.

E, se em 2017 Villeneuve tem pela frente a dura missão de dar continuidade a saga do maior clássico do Sci-Fi, o Blade Runner de Ridley Scott, A Chegada nos prova que ele sabe, de fato, em que terreno está pisando, mesmo que o futuro não esteja (em todo o caso) em suas mãos.

COTA: 4/5

Rubens Fabricio Anzolin, 19/02/17

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