Aos Teus Olhos (2017) l O tribunal da classe média que não se concretizou.

Segundo longa-metragem da cineasta carioca Carolina Jabor traça estigma do linchamento para tratar de um mal social.

Rubens (Daniel de Oliveira) em Aos Teus Olhos (2017). Fonte: IMDb.

Talvez o mais famoso exemplo de uma relação sexual adulto-criança no universo artístico em geral seja a de Lolita. Tanto a do livro de Vladimir Nabokov quanto a do longa de 1962 de Stanley Kubrick, que estrelava James Mason no papel de Humbert Humbert — o homem adulto que se apaixonava por uma menina muito mais nova que ele. Nesse sentido, há um evidente interesse da cineasta carioca Carolina Jabor em questões muito semelhantes a de obras como Lolita: o estigma social que cerceia as relações problemáticas entre adultos e crianças, contabilizando, é claro, as suas consequências.

Desse modo, Aos Teus Olhos, segundo longa-metragem da diretora, parte do viés da vítima para narrar o seu relato. Alex (Luiz Felipe Mello), o inseguro e calado menino de 8 anos, conta à Marisa, sua mãe (Stella Rabello), que o professor de natação Rubens (Daniel de Oliveira) havia dado-lhe um beijo durante a aula. Transtornada com a situação, Marisa envia Davi (Marco Ricca), o pai ausente do garoto, para reclamar a demissão do professor ao clube.

Rubens (Daniel de Oliveira) em Aos Teus Olhos (2017). Fonte: Reprodução.

É interessante, nesse caso, como Carolina Jabor desenha todo o seu filme baseado na problemática do mistério que envolve o fato crucial. O suposto beijo que Rubens havia dado em Alex não é filmado pelas câmeras de segurança do clube, e é somente através das palavras e personalidades dos personagens que se torna possível analisar a trama. Sendo assim, existe uma tentativa muito evidente em Aos Teus Olhos de filiar-se a um cinema de gênero de suspense, bem similar ao que é feito pelo curitibano Aly Muritiba — a exemplo de Para Minha Amada Morta (2016). Não à toa, pode-se observar uma semelhança muito clara entre a abertura de Crepúsculo dos Deuses (1950), na piscina da mansão de Glória Swanson, onde o corpo de um cadáver flutua, com a abertura de Aos Teus Olhos, em que a câmera vaga em tom dramático pela piscina do clube em que Rubens e Alex tem aula, movida por uma trilha suntuosa, quase como se demarcasse o presságio de algo negativo, orientando aquele local como área suspeita.

E é, de fato, bem envolvente o desenrolar do filme, que se constrói com diálogos e personagens extremamente verossímeis, parte de uma camada média urbana que lida com as crises de uma contemporaneidade ainda conservadora. O roteirista, Lucas Paraizo, articula de maneira astuta uma estrutura problematizante de questões sociais urgentes, para além da relação de suposto abuso do menino, como o medo de Davi de ter uma certa masculinidade ferida por carregar um filho que possa ser dito homossexual, ou o zelo de Ana (Malu Galli), diretora do clube, pela estrutura institucional que rege sua vida. Mais essencial que isso, no roteiro de Paraizo encontra-se o cerne da temática de Jabor, que se aproxima muito de uma relação descrita por Zygmundt Bauman, célebre sociólogo polonês: a crise da capacidade de contato na mídia social.

Alex (Luiz Felipe Mello) e Rubens (Daniel de Oliveira) em Aos Teus Olhos (2017). Fonte: Reprodução.

Mais que tudo, Aos Teus Olhos é um filme que trata sobre o linchamento na rede social e sobre a crise de uma sociedade que possui uma arma na mão, constantemente. Marisa é o símbolo do transtorno gerado pela dúvida e pela derrocada de uma certa vida adulta não concretizada — que a eficiente direção de arte de Rafael Targat denuncia através dos livros visivelmente bagunçados e do apartamento poluído de remédios e decorações desorganizadas. Davi, ex-marido de Marisa, é também a metonímia de uma velhice brasileira que insiste em resistir em um conservadorismo pífio e imbecil. A figura do pai ausente — que não aceita a derrota do filho pequeno e inseguro, que afirma inocentemente ter “vários amigos gays” mas que não se conforme com a possibilidade de que seu filho tenha um professor homossexual — é retratada e encarnada de modo corajoso e crítico. Além de reforçado tanto pela interpretação madura de Marco Ricca (que entrega uma postura ríspida e ignorante, mas espetacularmente humanizada) quanto pelo figurino de Joanna Ribas, que o veste com cores lavadas e trajes longos, como quem sempre anda atrás de algo em que se amparar.

O que impede, então, Aos Teus Olhos de ser um filme tão essencial no antro da recente cinematografia brasileira, talvez seja a própria ênfase que Jabor dê ao seu melhor personagem, o próprio Rubens (que Daniel de Oliveira interpreta de maneira esplêndida e cheia de camadas). A condição do professor de natação como culpado nunca é de fato resolvida, mas sempre problematizada. O ponto crucial disso tudo, porém, é o entendimento de que a solução da problemática é sempre atrasada ou reivindicada por um ou outro motivo. O menino — visto como suposta vítima de um beijo que, ao certo, nem se sabe se ocorreu ou não — aparece em tela pouquíssimo tempo e nunca é cogitado ouvi-lo. Acontece, nesse ponto, um arrastar de trama em prol de uma crítica social e estigmática — que por sinal, é bem-vinda e bem realizada, mas que não encontra trama suficiente para sustentar-se, o que acaba retirando a força inicial do flerte de Jabor com o suspense e o mistério.

Há, assim, uma incerteza que paira no ar e que se mantém até o último quadro do filme. Existe um ponto de embate e uma ferida a ser tocada, e Jabor filma-a de maneira grave e forte — como a cena das mensagens, que remete muito a uma cena semelhante do ótimo Personal Shopper, do francês Olivier Assayas (2016) –, mas há também uma incapacidade de sustentar a trama (e não a crítica) em si mesma. E, ao fim, Jabor quer falar de quem, por vezes, não tem voz e é crucificado por isso, mas acaba ela própria crucificando seu filme por não dar voz a quem mais poderia resolvê-lo: a própria vítima.

Cartaz oficial de divulgação de Aos Teus Olhos (2017). Fonte: IMDb.

Filme: Aos Teus Olhos
Ano: 2017
Direção: Carolina Jabor
Roteiro: Lucas Paraizo
Elenco: Daniel de Oliveira, Marco Ricca, Mallu Gali, Stella Rabello, Luiz Felipe Mello

COTAÇÃO: 3/5


Rubens Fabricio Anzolin, 18/07/2018
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