
Bingo — O Rei das Manhãs (2017) | A dor de cair do palco.
O peso: não da farsa, mas do disfarce.
Há uma cena em específico, na verve de Bingo — O Rei das Manhãs, que impede-me de classificá-lo como farsa. No momento em que Augusto Mendes (Vladimir Brichta), no pico mais alto de sua fama, retira a maquiagem de palhaço para adentrar em uma cerimônia de premiação como civil é que fica claro: Bingo é um filme sobre identidade. Não sobre farsa, mas sobre disfarce.
Por fora de Bingo, estreia do montador Daniel Rezende na direção, há uma brasilidade fajuta, uma homenagem parca: Arlindo Barreto, o famoso palhaço Bozo, ex-ator de pornochanchada, tem sua trajetória na televisão contada. Uma cinebiografia não-autorizada.
É a partir desse rótulo que Bingo se traveste e se apresenta — com janelas televisivas, imagens chiadas e penteados elevados. Exibindo o seu historicismo infanto-juvenil, a reconstrução de época ludibriosa e o pano de fundo industrial.
O problema em questão, é que Bingo se disfarce no Brasil, vista as roupas do próprio e até insira-se em suas temáticas, mas nunca seja genuinamente brasileiro. Nesse sentido, o cinema que Daniel Rezende propõe, do início ao fim da projeção, aproxima-se muito mais de um cinema americano (em estética, linguagem e narrativa) do que propriamente de um cinema periférico. E, dentro de suas convenções de cinema estadunidense, Bingo até funciona bem. Derrapa, mas funciona bem.
Seu corpo opera constantemente na chave da narrativa clássica. Bingo é, do início ao fim, um filme sobre ascensão e queda, sobre bem e mal. Ou melhor, sobre uma noção unilateral de maniqueísmo, sobre um senso estereotipado (vide, disfarçado) de luz e trevas. Augusto é bom pai, sem emprego, homem divertido e engraçado; espirituoso. Adentra o mundo televisivo, usa a malícia para conseguir um cargo importante, sucede à fama. Chegam os poderes, esquece-se as responsabilidades. No caminho de Augusto, haviam muitas carreiras de cocaína, muitas doses de uísque e um fetiche excessivamente másculo de transar com Lúcia (Leandra Leal), sua chefe cristã.
Bingo não faz questão nenhuma de esconder que é um filme de um ser só. Que trata de uma luta interior, de um sentimento ou de uma realização que reside somente em si mesmo. Bingo é um filme sobre o Bozo (Bingo), sobre Arlindo (Augusto). E nisso não há farsa ou disfarce algum. Não existe espaço para mais ninguém brilhar em Bingo além de Vladimir Brichta. Leandra Leal se esforça, pisa firme, traz uma complexidade na voz e no modo de olhar, mas o próprio roteiro de Luiz Bolognesi constrói-se para a figura central. Andreia é mais uma párticula no imã que é a vida de Augusto; no que gira ao seu entorno. No fim das contas, é quem leva as broncas por ele, quem carrega seu programa, quem entrega-lhe uma folha de papel no leito de morte. Assim como a mãe, Márcia Mendes (Ana Lúcia Torre), que existe no filme para cumprir uma certa ação afetiva na jornada televisiva do filho. Ou, também, como Gabriel (Cauã Martins, caricatural ao extremo), o sofrível filho esquecido pelo pai, motivo óbvio de sua final redenção. Em seu âmago, o filme do palhaço safado, sagaz e bagunceiro — que utiliza a roupagem da televisão, da trajetória do Cinema brasileiro, que satiriza figuras históricas de um momento tão incompreensível e insano do cotidiano popular — , é um filme com uma visão careta, enfadonha, incompleta.
Não é à toa que a câmera de Lula Carvalho gire reiteradamente em Augusto e Gabriel na cena em que ambos passeiam de carro pela praia. A metáfora, assim como quase tudo em Bingo, está escondida, mas é clara: Bingo é um filme de centro, que olha para o centro, que opera dentro de si.
Por ser uma obra cerceada, acaba arcando com os seus próprios fatalismos, com os seus próprios pesos. Há um desbalanceamento em Bingo: não só o desequilíbrio moral que reside em Augusto está em tela, há, acima de tudo, um desequilíbrio formal. O filme sobre a cultura pop brasileira é calcado nos planos-sequências, na câmera que engole os personagens, que derrama o espectador dentro da ação. É uma estilística fílmica (óbvio) quase de José Padilha. Mas sem a simplificação, sem a narração. Bingo é expositivo por si só. O roteiro de Bolgnesi se esforça para ser engraçado, pra ser malicioso, para guardar um subtexto ardido no âmago do homem que, pouco a pouco, consquistou a fama e perdeu-se nela.
Não há segredos de que Bingo seja um projeto de ambição, de pretensão — e nem é curioso que o Cinema que Daniel Rezende tente forjar seja absolutamente altmaniano. A questão é que, em Robert Altman (seja em O Jogador, em Short Cuts ou em M.A.S.H) há sempre um balanço de questões, uma carga dramática esparsa, uma simbiose com o mundo na volta. O modelo narrativo de Altman sabe carregar o peso de seus valores, algo que, em Bingo, é sempre esquecido. Sempre disfarçado.
E se, para Daniel Rezende, a questão reside no tamanho do peso e das medidas, é inevitável pensar em Sidney Lumet. Não só no Sidney Lumet de 12 Homens e Uma Sentença, mas principalmente no Sidney Lumet de Rede de Intrigas — obra-prima do estudo televisivo. Em Lumet, que Bingo tenta — no discurso altivo dos homens, na temática textual, no sombrio dos questionamentos — emular, há um senso crítico ferrenho e uma humanização absoluta.
No fim das contas, é esse o grande fardo de Bingo: o peso do disfarce, da fantasia, da máscara. Para Bingo, é ótimo ser estampado como produto da cultura pop brasileira, o problema é a ode ao Cinema americano; a falta de brasilidade. O problema é que o filme que represente o país no Oscar seja uma exceção em meio a tantos outros produtos que refletem uma situação e uma maneira de produzir muito mais legitimamente brasileira que o filme de estúdio.
Para Augusto, é ótimo ser Bingo, o problema é ser Augusto.
O problema, (Daniel, Augusto), é que não é Bingo que é Augusto: é Augusto que é Bingo. E existe Bingo sem Augusto, mas Augusto, não sabe existir sem Bingo. E a maquiagem, o disfarce, a fantasia, em algum momento, precisa ser retirada.
Nesse momento, é necessário saber dosar as dores de perder a máscara. De borrar a maquiagem. De cair do palco.
Rubens Fabricio Anzolin, 05/09/2018
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