RATO, Diálogo do Balcão.

BALCONISTA

-Oi.

NARRADOR

-Oi. (fala contida)
-Um Marlboro, por favor.

BALCONISTA

(respira fundo, com ar de cansaço)

-Qual?

NARRADOR

-Vermelho.

BALCONISTA

(quase sem expressão)

-Não tem.

NARRADOR

(ainda sem gosto pela vida e em tom dócil de indiferença)

-Pode ser o azul. Por favor.

BALCONISTA

(com total indiferença)

-Não tem também. Desculpa.

NARRADOR

(com pouca esperança)

-Tem algum Marlboro?

BALCONISTA

-Parece que não.

(verifica brevemente)

-Acabou tudo. Desculpa.

NARRADOR

-Tem Free?

BALCONISTA

(verifica, encontra)

-Tem. Qual deles?

NARRADOR

-Não faz diferença. Pode ser qualquer um.

BALCONISTA

(passa um Free Cinza enquanto acende um Marlboro Vermelho que se encontrava no avental)

-5.00$

NARRADOR

(paga e pergunta de maneira formal e curiosa, ainda sem muita simpatia)

-Desculpa, se importa em me dar um Marlboro?

BALCONISTA

(ainda sem empatia)

-Desculpa, é o último.

— NARRADOR OBSERVA NA CARTEIRA, ONDE AINDA EXISTEM 3 CIGARROS —

NARRADOR

(curioso, esperançoso e, também, irritado)

-Mas ainda tem três na carteira.

BALCONISTA

(de maneira didática)

-Eu fumo apenas um cigarro por dia. Então, esse é o primeiro do dia. E também o último.

NARRADOR

-E você não pode me dar o seu cigarro de amanhã?

BALCONISTA

-E o que eu vou fumar amanhã?

NARRADOR

-Bom, fume o de depois de amanhã.

BALCONISTA

-E o que eu vou fumar daqui há dois dias?

NARRADOR

-Nada. Quer dizer, o seu primeiro cigarro, da sua nova carteira.

BALCONISTA

-Daqui há dois dias eu não terei dinheiro pra comprar um cigarro novo. Só recebo daqui há três dias. Eles são contados.
Por isso, esse é o quarto cigarro, mas também é o último. Desculpa.

NARRADOR

(triste)

-Tudo bem. Obrigado.

— — —

Rubens Fabricio Anzolin, 11/04/17, 20:24

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