Marcin Mikołajczak (2015), Tela.

um poema para o meu pai.

o meu pai, joão silvério dias do nascimento
pedreiro de mãos de obras
afinador do ferro
forjador da máquina
não teve tempo de rastejar

dele
herdei um breve senso crítico no sentido de ser
aprendi a errar o caminho
dar de joelho nas pedras e com a boca no coração

os caminhos do corpo ninguém me ensinou
os desertos da paixão
as solidões dos navios
o forjar de identidades

meu pai, o joão silvério dias do nascimento
autor de machado de assis
de histórias tristes
de contos de navegantes errantes do século xxi que voavam por portugal
não me ensinou a ser feliz

joão silvério dias do nascimento me ensinou
que a gente nasce e morre pra ser oferenda
que a gente nasce e morre pra ser breve
pra se levar como o mar
no clarão do barro
no tato do tapete
na espinha do galo

joão silvério dias do nascimento
o joão
astuto sapeca moribundo
que assinou os bilhetes como meu pai
reforçou os deveres do labor e instituiu ordem geral na poesia das sarjetas
me disse que na verdade o sol ferve e
quando borbulha — desgostoso
resolve fugir porque já é tarde
demais

que a natureza anda de mal com a gente
que se esconde de baixo da grama
vestida de árvore e mato
porque a gente já não pode mais querer nada nem ser nada

o tempo que tínhamos
(me contava o joão silvério)
esvaiu-se no turbilhão de partituras

partimos no meio de tudo
partimos do meio de tudo
imigrantes do excesso
e tornamos a gerar cinzas como cavalos errantes
como homem-máquina
moldador da argila de trevas

quando nasci, meu pai
j. s. d. do n.
que me carregou na nuca
mesmo tendo pau oco
pediu que eu fosse assim meio turvo
com medo de errar
santo forte, macaco prego

que o mundo não tem espaço pra quem é tardio
pra quem é do canto dos sabidos
pra quem já emergiu da caverna com a tocha e o livro na mão

meu pai me contou
que pra vencer na vida tem que ter beiço mole
chupar picolé no sol a pino
às seis da tarde
esmiuçando as preocupações
palitando os dentes
devendo todos os pecados

meu pai tão pouco venceu na vida
morreu de gangrena
aos 17 anos
no interior de uma oca indígena
numa floresta vermelha
rodeada de peixes-espinho
nos arredores de são tomé e príncipe
com uma lança enfiada no cu
e um azar tremendo.

Rubens Fabricio Anzolin
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