Das histórias que poderiam ter sido

Lara. Moça simples, de sorriso fácil, espírito livre e coração aventureiro. Independente, vive dizendo que casa é estar na companhia dos que ama. Até por isso, nunca se prendeu a lugar algum. Nunca repete um caminho por mais de três vezes, pois gosta da sensação de se ver perdida só para mais tarde vir a se encontrar. Bela, teve poucos namorados antes de desistir da ideia de estar com alguém pra sempre. Dos homens que conheceu, nenhum soube entender ou aceitar o anseio por liberdade que exala pelos seus poros. Sempre alegre e sorridente, é das que veem o copo sempre meio cheio — e se for de cerveja, trata logo de esvaziá-lo, para então vê-lo inteiro cheio de novo. Trabalhava em escritório, de terninho e saia justa, salto sempre alto, maquiagem impecável. Cansou desse jogo de personagens e foi trabalhar numa livraria. “Agora trabalho rodeada por personagens mais interessantes e tenho mais tempo pra viver minhas próprias histórias”, se orgulha ao dizer. Entre suas histórias preferidas, a vez em que foi com mais quatro amigos em uma excursão não-guiada pela Serra do Caparaó, atrás das cachoeiras e de uma das vistas mais belas do país.


Joaquim. Sujeito tímido, desses falso-extrovertidos, sorriso inibido, desses que olham para baixo enquanto sorriem, que é pra ninguém reparar em seus dentes levemente desalinhados. Seus amigos o chamam de Joca, porque Joaquim parece nome de velho. Ele gosta. "Joca é maish dishcolado", como costuma dizer. Não é carioca, apesar do s puxado. Gosta de (tentar) imitar o sotaque carioca quando vai fazer alguma piadinha porque, segundo ele, tudo soa mais engraçado com sotaque carioca. Gosta de pegar caminhos diferentes até achar o mais eficiente, seja ele o mais rápido ou o mais curto — na cidade grande, tempo e distância são medidas que se confundem. É sistemático e apegado a rotinas, embora goste da ideia de viver uma vida mais simples e imprevisível. Nunca foi o mais bonito de nenhuma turma à qual pertenceu, mas colecionou alguns poucos romances ao longo dos seus vinte-e-tantos anos. Sempre preferiu a qualidade à quantidade. Amou tanto nessa vida que desaprendeu o que é amar. Aprendeu ao longo dos anos que se entregar demais desbalanceia a equação, e passou a se entregar de menos, sem perceber que a equação continuava igualmente desbalanceada. Trabalha mais do que devia, mas acha que assim está bom, porque não sobra tempo pra pensar em besteiras como a paixão, a solidão e um cachorro pra adotar. Esconde no trabalho e no humor uma certa frustração pelas histórias que não viveu.


Em uma sucessão improvável de eventos, Lara e Joca se conheceram.

Joca, entediado e cansado da mesmice urbana de sua cidade, resolveu por impulso que iria a uma excursão qualquer que envolvesse qualquer combinação dos ingredientes trilhas, quedas d'água, praias e montanhas. Contou ainda com o incentivo de um amigo, que já não aguentava mais vê-lo reclamando do tédio e de como a vida na cidade grande o estava consumindo. Analisou algumas opções, descartou outras, chegou em duas finais. Gostou mais da organização e da localização de uma, mas acabou decidindo pela outra, sabe-se lá porquê. "Já que é pra fazer algo diferente, comecemos já por essa escolha", pensou enquanto se inscrevia.

Na data do evento, Joca chegou no local de encontro apenas alguns minutos depois do horário combinado. Notou ainda de longe uma moça que se destacava no grupo, com seus longos cabelos escuros e seu sorriso contagiante: Lara, ali em seu habitat natural. Joca, coitado, um peixe fora d'água. Chegou, cumprimentou timidamente o grupo e se sentou a uma certa distância, não querendo interromper a conversa, que parecia animada.

Ela reparou no seu nervosismo e achou graça em seu sorriso tímido ao cumprimentar o grupo.

– "Você veio pra excursão? Vem aqui pra perto!"
– "Não, obrigado. Vou ficar por aqui mesmo, não quero atrapalhar."

Ele reparou na sua energia e se sentiu paralisado pelo seu olhar ao mesmo tempo tão sereno e cheio de si.

Ela se aproximou, se apresentou e eles conversaram até partirem dali para a excursão. O nervosismo dele deu lugar à admiração. A tranquilidade dela deu lugar à empolgação. Andaram juntos durante todo o trajeto, se ajudaram, se apoiaram, traçaram rotas próprias, se fotografaram, riram, se divertiram. Mas em momento algum qualquer um dos dois esboçou qualquer tipo de aproximação. No máximo se esbarravam, como se quisessem dizer "chega mais perto" sem de fato dizê-lo.

Por diversas vezes se pegaram trocando olhares, em meio a um silêncio que gritava alto o desejo compartilhado pelos dois. Mas nunca de fato o disseram, nunca de fato se arriscaram. Deixaram que o medo e a insegurança quebrassem o silêncio que os conduziriam à história que, no fundo, tanto perseguiam.

E se despediram. Ambos querendo que aquele momento não tivesse que chegar. Não tinha. Foram para suas casas com o mesmo sentimento de que poderia ter sido melhor, com a mesma lamentação e uma mesma reflexão:

Quantas histórias você já deixou de viver simplesmente por medo de vivê-las?