A performance do errante

Se você estiver passeando atento pela Av Paulista, de certo vai cruzar com ele. Um homem de 30epoucos anos, morador de rua e cadeirante. Diferente de outros que vi — e por isso certamente você também o conhece se percebeu — ele tem as pernas enfaixadas, junto à cadeira, com fitas silvertape. A verdade é de que primeira, eu também não havia percebido.

Da primeira vez que trombei com ele, eu estava dentro do carro, ele se aproximou da janela e pediu um troco. Dei-lhe alguns trocados e ele já voltou ao meio fio. Ingênua eu, o vi nesse caminho perder o equilíbrio e cair. Num desconforto que saia pelos meus poros e numa paralisia que vinha da minha surpresa, continuei a olhar aquele homem, que no chão se contorcia e rodopiava com sua cadeira de rodas. A verdade é que havia muito domínio e destreza em seus braços e movimentos, eu não entendia exatamente o que acontecia, mas algo me sugeria mais.

No cruzamento, uma viatura percebe o homem no chão e num ato de cuidado, se aproxima e para. Um policial desce com a arma na mão pra gentilmente ajudar aquele homem com dificuldades no chão. Nada mais lógico do que vir com a arma na mão, afinal, nunca se sabe o que esperar de um morador de rua — caído ao chão — ainda que ele esteja com as mãos aparentes, livres, no controle de seu acessório quase vital numa cidade doente que o afasta de muitos encontros e oportunidades… Nunca se sabe.

O homem não o percebe e segue com seu malabarismo. Como numa sincronia mágica, vejo o policial a cinco passos, o verde do semáforo e o cadeirante no seu último rodopio. Ele levanta como uma bola de basquete que quica, ágil, com força e intensidade. Do seu rosto, um sorriso que quase não lhe cabe. Eu sorrio de volta, como muitos outros devem ter sorrido. Sorriso contagiante.

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