Existe Esperança após Alexandria?

Estalos, labaredas, água, vapor, suor e lágrimas… A receita para se criar cinzas. O fogo é mesmo uma ironia da humanidade. Consideramos o controle do fogo um marco na evolução humana. Para os pré-socráticos, o fogo era muitas vezes o saber. No Iluminismo, conhecer era iluminar. É uma piada de muito mal gosto mesmo que logo, o fogo, destrua o Conhecimento.
Em 48 a.C, soldados romanos ateiam fogo ao porto de Alexandria. O fogo se espalha pelas docas e atingem a Biblioteca de Alexandria. Uma das sete maravilhas e maior centro de saber do mundo antigo, destruída. Milhares de pergaminhos se tornaram cinzas e o prédio desaparece na história. O maior golpe que o Conhecimento já recebeu.
O fogo já nos fez sofrer muito, já nos fez perder demais. Existiria esperança para nós após Alexandria?
Entre os desastres naturais e incêndios planejados, nós sobrevivemos. Mesmo após Alexandria, nós ligamos os continentes, conquistamos os céus, chegamos ao espaço. Descobrimos a penicilina, controlamos epidemias, diagnosticamos diversas doenças. Inventamos o motor a vapor, a Robótica e criamos a Internet. O Conhecimento resistiu!
E resistiu porquê aprendemos com passado. Sempre tivemos interesse em estudar desastres do passado aliás. Não pelo desastre, pelas mortes ou destruição. E sim pela investigação, pela necessidade de saber. Se uma cidade queima, nós estamos lá. Se um prédio desaba, nós estamos lá. Tróia, Pompéia, Roma, Londres, São Francisco, todas queimaram… e nós ainda estamos lá. Investigando, estudando, entendendo um pouco do que fizemos, do que faremos.
A História mostra ter essa força mesmo. Se ela existia antes nos magníficos edifícios, na arte e na cultura, ela também existe agora nas cinzas, na fumaça e no vazio. O que antes era um prédio, agora é memória, o que era um museu, agora é história. O que agora é lágrima, amanhã será resistência. A resistência em contar, em expor, em não permitir que se esqueça. Jamais! Tudo é História!
Que todos os pesquisadores de todas as áreas e campos da ciência, funcionários e diretores, possam ser abraçados por nós. Tento imaginar como é difícil, me esforço para não diminuir a dor de nenhum deles. Anos de tempo, força e amor investidos no saber, na pesquisa e na ciência, que hoje viraram cinzas.
A perda é imensurável, incalculável. Pesquisas que não poderão ser refeitas ou continuadas. Artefatos uma vez encontrados e agora para sempre perdidos. Poderemos escavar o mais profundo da Quinta da Boa Vista que jamais os encontraremos. A História, a Botânica, a Arquitetura, as Artes, o Rio, o Brasil, o Mundo, todos perdemos com o fim do Museu Nacional.
Muito felizmente não se perdeu nenhuma vida humana. No entanto a perda do acervo é uma morte da nossa história, e da nossa ciência. Como bem lembrado pela Coordenadora do Programa de Pós-Gradução em Arqueologia da USP, Veronica Wesolowski:
“Agora estão definitivamente mortos, não nos hão de contar mais nenhuma de suas histórias, e nós, em nossa humanidade partilhada, morremos um pouco com eles.”
Mas nós resistimos! Continuaremos pesquisando, continuaremos investigando, estudando, ensinando. A História seguirá seu curso, ela renascerá dos escombros do Museu Nacional para as páginas da Memória. Contaremos aos que quiserem saber, falaremos aos que quiserem ouvir. Diremos sobre o que existia, sobre o que era feito. Não deixaremos que se esqueçam da Ciência e a da nossa História!
Porque a História e a Ciência são assim. Podem derrubar os prédios, podem queimar os livros. Não é lá que elas habitam! Afinal, de que servem os prédios se ninguém os visitar? E porquê escrever livros se ninguém os lê?
A História e a Ciência habitam em cada cientista que continuou contra o desmonte da ciência, em cada corte de verba ano a ano. Habitam naqueles que se esforçaram para manter o Museu funcionando. Que lutaram para angariar fundos. Em cada um que entrou no Museu em chamas para salvar algum item, alguma peça.
E habitam em todos aqueles outros que tem Memória, naqueles que Pensam. Que irão se comprometer em jamais deixar que o Brasil esqueça do que ali havia, do que ali se fazia.
Existe esperança após Alexandria. Existe esperança após o Museu Nacional!
A História e a Ciência resistirão!

PS: Entendo a falta de vontade política do governo em relação a ciência e educação no país. Mas o texto é um convite à encarar toda esta tragédia já anunciada com vontade de resistir e continuar! Inclusive denunciando o projeto governamental de sucatear a Ciência e Educação Brasileira.
Aos pesquisadores, trabalhadores e diretores diretamente atingidos, aos que se compadecem e se solidarizam. Que quando toda a dor e sofrimento passar, possam erguer a cabeça e voltar a ter esperança, na ciência e na pesquisa! Precisamos resistir!
