Pedra, vi outro atravessando a areia

Ruidosas Bolhas
Jul 30 · 2 min read

Soava como cacos de vidro quebrados. Um recipiente de vidro, como uma redoma, que mesmo sendo de vidro um pouco mais grosso, qualquer ação mais brusca poderia ocasionar um acidente, espatifando-o no chão. E seus poemas saiam assim, feridos, arremessos espinhosos, que não matam, mas cortam, pequenas lembranças da dor.

Como reconstruir o vaso? Como encontrar o essencial, a unidade feita de um mosaico? Como preparar a massa que serviria para unir os pedaços?

Por não lidar com a dor em seu momento certo, e lhe dar o espaço necessário, junto com a incompreensão de quem estava em volta. A dor vinha em parcelas, cada semana em um dia, com um peso diferente, com juros pela falta de atenção.

Não era solidão, era um estado em que algumas vezes ela se encontrava, não sabia como lidar com frustrações. Irritava-se, chorava, ficava extremamente sensível, e entrava em uma melancolia breve, superficial, em que as raízes das flores de lótus aquática, que parecem boiar, sobrevivendo sem raízes, mas estão conectadas com o inconsciente de origem.

A solidão vinha, porque quando encontrava-se nesse estado, não queria derramar nem colocar as pequenas raízes em contato com a pele e a membrana ótica de ninguém. Aturaria aquilo sozinha, pois acreditava que era a responsável, única, por lidar com suas emoções.

Acordar era difícil, fazer o que precisava era impossível, fazer o que gostava parecia distante e inadequado.

Tento acostumar o leitor, como faz Clarice. Convido-o a entrar, a tirar os sapatos, e experimentar as texturas do interior da casa, trato-o com gentileza, um humor que relincha, sirvo chá, café ou suco, pois estamos no verão. As janelas abertas, cortinas contra o sol, afastamos as moscas, tento manter os olhos profundos. A intensão não era seduzir, mas talvez tenha algo em mim, que pede uma extrema atenção, tão entregue como fico. Para a amizade ou para o amor. O sentimento é uma morada que arrumo para que venham e desarrumem.

A sedução vira uma suplica, não sei em que momento desaprendi a transformar os cacos em um recipiente novo. É que existem coisas que se quebram uma vez só, e nunca voltam no lugar de origem. Minha Clarice é manca, como na minha mãe aos 50 anos perdeu a audição. Clarice ainda pode escutar sua banda de kpop favorita, gosto de vê-la dançar.

Ainda não consegui fazer o vaso de mosaicos parar em pé, mas não desisti dele, ainda.


wabi-sabi é um conceito filosófico e estético do zen-budista que celebra a beleza da imperfeição, do impermanente e do envelhecer dos elementos.

Ruidosas Bolhas

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gosto de construir coisas. e de saber como elas são construídas.

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