‘Buraquinhos’ transita entre a denúncia épica e o arrebatamento estético

reflexão crítica de amilton de azevedo sobre "Buraquinhos ou o Vento é Inimigo do Picumã", da Carcaça de Poéticas Negras.

ruína acesa
Nov 7 · 2 min read

[texto publicado originalmente na Folha de S. Paulo em 15/07/2018]

Jhonny Salaberg, Ailton Barros e Clayton Nascimento em "Buraquinhos" / foto: divulgação

A história não é nova nem incomum: um garoto negro de 12 anos sai de casa, na periferia, para comprar pão. Tido como suspeito em frente à padaria, corre para não ser baleado pela polícia.

Porém, em “Buraquinhos ou o Vento É Inimigo do Picumã”, primorosa dramaturgia de Jhonny Salaberg, os tiros não o impedem de correr. Do asfalto ele salta para os fios de alta tensão, por onde se equilibra. Com tons de realismo fantástico, o menino em fuga salta da fiação e encontra diversos pousos pelo mundo.

A narrativa singular de um jovem de Guaianases — bairro onde o dramaturgo vive — então, se redimensiona. Planando pela América Latina e por África, não se deixa morrer. Em seu trajeto, é auxiliado por pessoas que encontra em tantas realidades duras como a sua.

A poesia de Salaberg reverbera na encenação de Naruna Costa de forma impressionante. O espetáculo alinha todos seus elementos com extrema felicidade. A trilha, executada em cena por Erica Navarro e Giovani Di Ganzá, constrói de forma sutil as distintas atmosferas da obra.

O figurino e a cenografia de Eliseu Weide, assim como a luz de Danielle Meireles, sangram junto do corpo que corre. Em cena, Ailton Barros, Clayton Nascimento e Salaberg mostram potência se revezando de forma dinâmica e orgânica entre personagens.

Clayton Nascimento, Ailton Barros e Jhonny Salaberg em “Buraquinhos” / foto: divulgação

Na desafiadora tarefa de transpor certas passagens da dramaturgia para a cena, Costa encontra soluções interessantes. Com recursos de certo modo simples, imagens belas e eficazes são construídas.

O enquadro, partiturado, vira dança, os LEDs brilhantes dos tênis correm pelo escuro, barris se tornam água e as cinco quadras que separam o menino de sua casa são o mundo inteiro.

A ressignificação constante de seus elementos, levados do cotidiano para o fantástico, mantém o público entre o encantamento e a reflexão. “Buraquinhos” transita entre a denúncia épica e o arrebatamento estético.

Fugindo e alvejado constantemente pelos que o caçam, o garoto acaba tendo em si todos os buracos do mundo. A escolha do grupo Carcaça de Poéticas Negras é, apesar disso, buscar a utopia.

Jhonny Salaberg, Ailton Barros e Clayton Nascimento em “Buraquinhos” / foto: divulgação
ruína acesa

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