olhai por nós, Xangô

reflexão crítica de amilton de azevedo sobre "(IN)JUSTIÇA", da Companhia de Teatro Heliópolis.

Apr 8 · 5 min read
"(IN)JUSTIÇA" / foto: Julia Andrade

Evaldo dos Santos Rosa estava indo para um chá de bebê com seu sogro, esposa, filha e uma amiga da família no carro. Ao que tudo indica, foram “confundidos” com criminosos. Militares do Exército dispararam oitenta tiros de fuzil. “Por engano”, fuzilaram um veículo. Evaldo está morto.

Em uma das cenas mais impactantes de “(IN)JUSTIÇA”, da Companhia de Teatro Heliópolis, um ator e uma atriz passam em revista por leis, execuções e massacres ao longo da história do Brasil. O ocorrido no domingo, sete de abril, poderia ser mais um dado na extensa lista. Como falar de justiça em um país onde uma ação absurdamente brutal como essa parece não ser novidade?

A encenação de Miguel Rocha se inicia com uma evocação a Xangô. O elenco bate cabeça em reverência ao orixá da justiça; seu machado de duas faces é símbolo de força, “para defender os bons e punir os maus”, afirma Bruno Paes Manso no ensaio presente no generoso programa do espetáculo. Além da força, Xangô também está associado à “sabedoria na busca pelo equilíbrio do universo”.

“(IN)JUSTIÇA” / foto: Caroline Ferreira

No Brasil, sobra a força e falta o equilíbrio. Curiosamente, no chão onde deitam os atores e atrizes se vê a letra da lei. No cenário/instalação de Marcelo Denny, é possível identificar o artigo quinto de nossa constituição — “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade” nos 78 termos que se seguem.

O que se verifica na encenação é que a máxima Dura lex sed lex não dá conta da complexidade da vida. A dureza do cotidiano — principalmente de negros, periféricos, indígenas, mulheres e outras minorias — é indescritivelmente maior do que a da lei. Além disso, o que nos mostra a realidade de nosso país é a arbitrariedade em suas aplicações.

A dramaturgia de Evill Rebouças — criada em processo colaborativo com a companhia — parte de um acontecimento como gatilho para uma reflexão mais ampla. Na letra fria da lei, um homicídio culposo sendo julgado. O jovem Cerol, com uma arma alugada, dispara durante uma briga com um vizinho — que o ameaçava. E a bala encontra uma mulher dentro de um carro.

Walmir Bess e Alex Mendes em “(IN)JUSTIÇA” / foto: Caroline Ferreira

No processo de levar este julgamento para a cena, “(IN)JUSTIÇA” antes constrói dois quadros dinâmicos. Em uma coreografia, o que parece se apresentar é a pulsação das ruas. As armas apontadas, as vítimas acuadas; e a complexidade deste trânsito. O violento cotidiano é ágil e fugaz. Na sequência, a montagem do tribunal. Na coreografia de assistentes carregando processos, o tempo é outro. Enquanto a vida flui, impetuosa, o judiciário não acompanha o acúmulo de páginas e páginas de cada caso.

Há uma complexidade grande a ser enfrentada na obra da Cia. de Teatro Heliópolis. Ao colocar em evidência um caso específico, parece uma armadilha debater questões estruturais. No entanto, a estrutura eminentemente épica na direção de Rocha encontra maneiras de verticalizar a reflexão; o pulsar da justiça se redimensiona para sobrevoar a história do Brasil.

A narrativa do jovem Cerol não se perde ao longo da encenação; sua retomada ganha constantes tons poéticos — como na imagética cena onde as estruturas de pipa sugerem os tantos voos interrompidos. No próprio apelido, diversas leituras metafóricas são possíveis. Na agressividade do material cortante, defesa e ataque: a linha que corta para sustentar por mais tempo o próprio voo.

Danyel Freitas e Alex Mendes em “(IN)JUSTIÇA” / foto: Caroline Ferreira

Trata-se da complexidade da lida com a violência que não é esquecida pelo espetáculo. “(IN)JUSTIÇA” reflete fundamentalmente sobre a relação do Estado com seus cidadãos, mas não deixa de suscitar inquietações também sobre a relação de nós com os nossos. E além da dramaturgia de Rebouças, há muito no não-dito.

A presença das musicistas Amanda Abá, Bel Borges e Fernanda Broggi — sob a direção musical de Meno Del Picchia — é camada estruturante da encenação. Estabelece-se efetivamente uma dramaturgia sonora em diálogo com as ações no espaço cênico. Assim como a iluminação de Rocha e Fagner Lourenço, as músicas sustentam as coreografias — de Rocha, Camila Bronizeski e Lucia Kakazu — além de atuar em consonância com a construção de belas imagens — Kakazu e Rocha assinam a direção de movimento.

Também cabe mencionar a presença na ficha técnica de Denny, Alexandre Mate e Maria Fernanda Vomero como provocadores — na sequência, referentes ao teatro performático, teatro épico e provocação teórica e prática — além de diversos pensadores em mesas de debates. Contemplada pela 31a edição do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, a pesquisa realizada pela Cia. de Teatro Heliópolis para a montagem de “(IN)JUSTIÇA” reverbera na encenação resultante.

Gustavo Rocha em “(IN)JUSTIÇA” / foto: Caroline Ferreira

Na transformação que ocorre no cenário, a busca por historicizar o debate proposto. A terra pode remeter a um cemitério; mas também aos que vieram antes. Com canções em línguas indígenas, o forte elemento racial presente na discussão e a evocação a Xangô — que, em sua retomada, parece se tornar um questionamento sobre o que seria a justiça — a obra reconecta-se com a ancestralidade. As tantas gerações massacradas são lembradas; e ainda que haja tremenda dor, um dado de esperança permanece.

A esperança está na inocência da criança. O pequeno Gustavo Rocha presentifica esse olhar para a história que não perde de vista o futuro que, sim, virá. É um doce — e por vezes intenso — contraponto ao tanto da violência que é enumerada e denunciada pela encenação; além do tanto que não é dito.

Neste enorme panorama pela (falta de) justiça brasileira, “(IN)JUSTIÇA” transita por momentos de tirar o fôlego e outros de puro encantamento. Entre o distanciamento narrativo proposto para que o espectador analise o enorme campo aberto para reflexão e o atravessamento proporcionado pelas coreografias e músicas, a Cia. de Teatro Heliópolis simultaneamente reafirma o óbvio e não nega o complexo. O que resulta enquanto única certeza é a da histórica injustiça em nosso país. Assim, frente às dúvidas que fazem clamar por Xangô, resta a luta; entre polícias e políticas, garantir o voo livre das pipas pelo céu.

Gustavo Rocha e Dalma Régia em "(IN)JUSTIÇA" / foto: Caroline Ferreira

ruína acesa

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críticas teatrais [e outros olhares] por amilton de azevedo

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