O golpe do 25 de novembro sem livro de livro de explicações nem reclamações
Carlos Matos Gomes
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De facto, o ponto de observação condiciona os resultados apresentados ao público pelo observador. Vivi o 25 de Novembro num posto de observação tão privilegiado quanto limitado: um estúdio de rádio no Rádio Clube Português.Tive a surpresa de verificar, quando foi publicado o relatório oficial que se propunha fazer luz sobre o acontecido, que o meu nome era mais citado do que o de muitos dos protagonistas do movimento militar. E posso assegurar ao Carlos, ao Rodrigo, e a todos os que leiam este comentário, que não fazia a mínima ideia do que estava a passar-se nos quartéis, nos palácios do poder, nos gabinetes das estações das agências de inteligência internacionais, nas ruas… Tinha um microfone à minha frente, um punhado de gente boa de muitas cores por detrás, e tudo o que podia fazer era apelar a que tivessem os senhores militares o bom senso de não lançar o país numa guerra civil.

O tempo revelou que este apelo tinha tanto de ingénuo quanto de ignorante. Os dados estavam lançados e as contas feitas. Nas palavras do Carlos, o novilho conhecia o seu destino tão bem quanto os campinos e o feitor.

Isto para dizer que — observando a esta distância e depois de tantos relatos dos protagonistas — as núvens de fumo lançadas de todos os lados não ajudam a vislumbrar os actos concretos desses dias, nem o seu alcance, em muitos casos nem mesmo os actores… Mas permitem-me comentar que os dois têm razão. A política faz-se pela força: e quando dois campos se enfrentam, se há dúvida de quem tem mais força, só a guerra dissipa a dúvida. No 25 de Novembro, como no 25 de Abril, não houve guerra, por não haver dúvida. O Carlos tem razão. O campo vencedor não precisa de justificar-se. E no entanto justifica-se, porque numa coisa o Rodrigo tem razão: foi a representação das forças na Constituinte e a sua relação desequilibrante que municiou os vencedores, mais do que os paióis dos três ramos das Forças Armadas. Nesse sentido, o 25 de Novembro de 1975 foi a chancela militar das eleições de 25 de Abril de 1975.

Calaram nesse dia, para sempre, a voz do Rádio Clube Português, e estatizaram os meios de informação nacionalizados. Por anos, eu próprio fui posto à margem, congelaram-me a carreira, como agora se diz… As vozes que ficaram foram as dos vencedores e as dos vencidos, em proporção — inexacta, é certo, mas assim mesmo proporção – da sua representação constituinte. Os que estavam fora, de fora ficaram. A degradação do sistema político deve muito a essas decisões e a esse tempo. Todos convivem bem com a Constituição que tudo promete, porque tão pouco nos dão.

A esta distância, ingénuo ainda, mas menos ignorante, atrevo-me a dizer que o principal mandato dos deputados constituintes não foi elaborar a Constituição. Foi mesmo legitimar o ajuste de contas dos militares. Porque não houve mudança política séria no Portugal do século XX que não fosse obra de militares. Quem quer vencer, quem quer mandar, faz bem em ficar do lado dos campinos… e do feitor!

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