Depois de ter mudado para os EUA, eu fiquei muito inseguro sobre as discussões raciais no Brasil…
Antes, eu não teria nenhuma dúvida em dizer que o papo de democracia racial é absoluta ficção, depois de mudar para cá eu já não tenho tanta certeza…
A constituição de 88, por mais cínicos que sejamos em relação à sua efetividade, estabeleceu precedentes que transformaram o diálogo racial no Brasil. Mesmo antes de 1988, a história do conflito racial no Brasil é muito mais complicada do que parece, especialmente quando você compara com os EUA…
Sim, Pixinguinha teve que entrar pela porta de trás para o jantar em sua homenagem depois de receber um prêmio internacional, mas o Brasil não tinha a KKK, nem nada remotamente parecido com o que os EUA pós guerra civil enfrentou…
Eu vou dar um exemplo bem caricatural. Quando eu mudei para cá em 2011, foi notícia nacional quando, no estado do Alabama, aconteceu o primeiro baile estudantil integrado. Ingênuo que eu era, eu perguntei: “como assim integrado, colocaram todas as escolas juntas?” e a resposta foi: “não, é o primeiro baile onde brancos e negros vão juntos”.
Enquanto o cinema brasileiro restringia os atores negros para papéis de comédia, no cinema americano, caricaturas negras eram filmadas por atores brancos em “blackface”…
Enquanto o cinema americano contava a história da libertação dos escravos na perspectiva da dona de terras branca que perdeu sua fortuna em “O Vento Levou”, o cinema brasileiro estava produzindo “Ganga Zumba”…
Por mais que a gente se queixe da ineficácia da lei que criminaliza o racismo no Brasil, nos EUA a KKK ainda é considerada uma organização política legítima…
Quando aquele FDP entrou em uma igreja histórica em um bairro negro em Charleston e matou todo mundo, a imprensa se recusou a usar o rótulo de terrorista, mesmo quando a evidência mostrou que ele estava agindo em nome do movimento da supremacia branca (que não só é legal aqui, como é protegido pela constituição). Ao mesmo tempo, um segmento significante do partido republicano pede pelo bloqueio incondicional da entrada de muçulmanos, indiscriminadamente os rotulando como um risco.
Sim, no Brasil lidamos com a continuidade da exploração de pessoas em situação análoga à escravidão. Aqui 1 pessoa em cada 30 é rotulada como criminosa simplesmente por estar aqui (sim, 11 milhões de imigrantes, em um país de 300 milhões). É daí o Trump vem e fala que os mexicanos são todos estupradores…
Levando tudo isso em consideração, eu definitivamente acho que a questão racial no Brasil é muito mais complicada do que parece, e eu acho que existe sim espaço para um debate menos polarizado do que debate nos EUA.
Enquanto no Brasil a Thais Araújo receber comentário racista é motivo para notícia, aqui nos EUA o movimento conservador tenta desqualificar o Obama dizendo que ele não é americano (só porque o pai dele era africano). Aqui nos EUA sofrer abuso verbal e online só por ser negro é aceito como um fato da vida.