As Dobras do Tempo

Criatividade, Singularidade, Conscienciologia, Física Quântica, Desdobramento, Energia, Imortalidade, Insights, Intuição…

O que esses títulos tentam dizer, insistentes em atrair para um mergulho em atmosfera inusitada?

Descrever as reações diante dessas interrogações milenares (lê-se nas entrelinhas ― quem somos e para aonde vamos?) é uma tarefa inglória, a tal ponto complexa que sugere um não comprometimento. Isso porque seria impossível colocar os seres humanos, com diferentes bagagens de experiências, num mesmo nível.

Invariavelmente, todas vão acabar no mesmo mar de dúvidas, a maioria vazada em comprovar sua importância. Vale até um passeio por registros e acontecimentos dando a entender o quanto o ser humano vive delas cercados no dia a dia. Senão, vejamos:

Comigo, por exemplo, durante as aulas da formação básica, uma fieira de interrogações desfilava na minha mente e, de súbito, terminava quando alguém chamava minha atenção para focar nos estudos. Aquelas viagens de segundos eram corriqueiras, mas pareciam transcorrer durante horas seguidas! Tratei de pesquisar até onde pudesse e, pasmem, encontrei um sem número de relatos com a mesma experiência de outras pessoas…

Um artigo instigante foi publicado aqui mesmo no Médium.com: “Não se explica Flow e Recompensa sem Take Five”, de Barbara Olivier. Disserta sobre momentos de insight, que identifico como profundamente gratificantes. Quando ocorrem, vão construindo o castelo de nossas ideias, de nossas vivências. Surgem ao cair de um papel no chão, uma frase desconexa ou um acontecimento que só você viu e em momentos de distração, resultando, quase sempre, na solução de assuntos complexos.

Diz a autora em certo trecho sobre o tempo: “Cada cultura tem um conceito sobre o que é e como se relacionar com ele. Para muitos orientais, o tempo é circular. Você pode planejar, correr, fazer diferente, mas, no fim, as coisas sempre vão se suceder, muitas vezes até mesmo se repetir e nada muda isso. Já para uma cultura ocidental norte-americana, por exemplo, uma sociedade que visa resultado, o tempo é linear, rápido e deve ser dominado… Já para parte dos europeus, principalmente do sul da Europa, o tempo é multiativo e não, simplesmente, linear. Sendo assim, quanto mais coisa for possível fazer ao mesmo tempo, mais felizes se sentem. Priorizam tudo que for significativo e fazem tudo caber no mesmo tempo ou, pelo menos, acham que fazem”.

Há depoimentos que dão pistas do que acontece nesses devaneios que poderíamos chamar de “dobras do tempo”. Existem diversas tentativas sobre o tema. “Um estudo feito pela equipe de Frederik Ullén, do Instituto Kardiska, da Suécia, publicado na revista cientifica PLoS One, apostou que o cérebro dos esquizofrênicos e o dos criativos têm um sistema semelhante do neurotransmissor dopamina”. Bonalume Neto cita, como exemplo, o Dr. House, personagem vivido por Hugh Laurie, que costumava “dar um tempo” e o diagnóstico irrompia como mágica. A dopamina favorece os impulsos elétricos entre as células nervosas formando uma rede propícia à cognição.

Como dito no início, distração ―muitas vezes considerada como dispersividade ― pode ganhar uma conotação diferente para criação/ inovação. Distrair-se permite chegar a ter percepções subjetivas, como um radar ligado noutra esfera de ação, sem ser uma fuga da realidade.

“Para Carson (Departamento de Psicologia de Harvard), comentando um estudo de Galinsky, a pessoa criativa é capaz de permitir, temporariamente, que o excesso de distrações seja canalizado, em percepção consciente, para fazer conexão entre os estímulos”. (Bonalume Neto)

Motivação para criatividade também pode derivar do exercício da observação continuada, sutil. A vida está cheia de acontecimentos, nas 24 horas do dia, para conceder alvará na construção de novas etapas em nossa vida. Sob hipnose, somos capazes de revelar detalhes de um ambiente que, em situação normal, omitiríamos.

Esses processos ocorrem de forma e maneira diferentes. “A compreensão não é obra de cultura ou raciocínio, mas uma maturação que se alcança por evolução” (Ubaldi)

Podemos ir mais longe trazendo uma figura do tempo que pode revelar como uma fieira de elipses interligadas. “Esse principio, que define o andamento de todo o fenômeno, pode ser expresso, graficamente, sob a forma de uma espiral em cujo âmbito cada pulsação rítmica é um ciclo que mesmo voltando ao ponto de partida se desloca, repetindo em tom de nível diverso o período precedente.”― Ubaldi, professor de uma Universidade romana que assim se manifestou em 1932.

Ubaldi diz ainda “que a evolução não é uma quimera e impulsiona o nosso sistema nervoso para uma sensibilidade sempre mais apurada que, dela, é o prelúdio.” Em outras palavras, uma semelhança muito próxima de ciclo + significado + resultado, de Daniel Levitim. O chamado fluxo, um estado em ritmo de criação (Kotler-Baby Olivier), eventualmente, pode até antever as próximas etapas de conquistas.

No filme ”La Land — Cantando Estações”, o personagem principal, vivido pelo ator Ryan Gosling, deixa ver o quanto o personagem vivenciou para justificar sua paixão pelo jazz, objeto também do artigo já citado. Foi possível vislumbrar, pela atuação de Ryan, o apuro em que os músicos se envolvem num especial momento de total harmonia, mas com características pessoais de cada integrante na consolidação de uma obra em comum. É um momento solitário, mas produtivo e inspirador. O silêncio está com os agentes e, não, com a assembleia desigual que os assiste. As ondas sonoras vão transformando conceito em ação na construção de um momento único, criando, no tempo, as notas que caracterizam a evolução da obra.

“Muitas pessoas já me caracterizaram como louco”, escreveu certa vez Edgar Allan Poe (1809–1849). “Resta saber se a loucura não representa, talvez, a forma mais elevada de inteligência.” Nessa sua suspeita de que genialidade e loucura talvez estejam, intimamente, entrelaçadas, o escritor americano não estava sozinho. Muito antes, Platão mostrara acreditar em uma espécie de “loucura divina” como base fundamental de toda criatividade. Isso exige cuidado quando é produto de comportamento inusitado de artistas célebres, podendo parecer que sejam portadores de graves transtornos psíquicos, o que parece confirmar o ponto de vista do filósofo grego.

Vincent van Gogh, Paul Galguem, Lord Byron, Liev Tolstói, Serguei Rachmaninov, Piotr Ilitch Tchaikovski, Robert Schumann ― o célebre poder criativo de todos eles caminhava lado a lado com uma instabilidade psíquica, claramente, dotada de traços patológicos, mas inspiradores.

“Variações extremas de humor, manias, fixações, dependência de álcool ou drogas, ainda hoje, atormentam a vida de muitas mentes criativas.” (Scientific American)

Fica aí, pois, uma singela contribuição a chamar nossa atenção para o estudo do que, verdadeiramente, representam essas propostas recheadas de desafios à nossa compreensão.

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H.Russo

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