Stjärnljus

Vinícius conheceu Maja em uma lanchonete chamada Stjärnljus, o único lugar em que se podia tomar uma cerveja e comer um sanduíche após as 22:00 naquela cidade. Todos os demais prédios se encontravam fechados, com suas luzes apagadas, completamente envoltos pela névoa do sono. A cidade dormia há algumas horas. Gällivare, ao norte da Suécia, é habitada há aproximadamente 10.000 anos, desde o fim da última era glacial, e parecia que pouca coisa havia mudado desde aqueles tempos. Ao desembarcar na estação de trem, Vinícius descobriu um pequeno vilarejo espetado no peito de uma planície devastada pela neve. Procurando algum lugar onde comer ele viu o Stjärnljus, e dentro do Stjärnljus ele viu Maja.

Vinícius vinha do norte, ou melhor, Vinícius vinha do Rio de Janeiro, mas se encontrava desterrado na Europa quando tomou a inusitada decisão de ir o mais ao norte que pudesse, aonde a vida teria menos chances de crescer, em pleno inverno. E então, ainda desejoso de preservar suas economias, Vinícius buscou em sua conta no Couchsurfing possíveis interessados em hospedar um jovem brasileiro, fosse na Noruega, na Suécia ou na Finlândia. Eis que um senhor de 60 e poucos anos chamado Sven se dispôs a recebê-lo, numa cabana às margens do rio Könkämäälven, em um vilarejo sueco que sequer nome tinha próximo à fronteira finlandesa.

Sven era botânico e estudava a tundra de seu posto privilegiado no norte da Suécia. A solidão imensa a que se submetia fez de Sven um ávido usuário do Couchsurfing, com o qual contatava e recebia jovens viajantes fascinados pelas fronteiras setentrionais do planeta. Sua vida girava em torno de recolher plantas e hospedar mochileiros. Assim, ele recebeu Vinícius da maneira mais atenciosa possível, e preparava-lhe o café, o almoço, o jantar. Durante o curto intervalo diário de luz do sol, Vinícius perambulava a esmo pelas vastidões boreais, coisa que Sven fazia também, seus os olhos fixos sobre o chão observando todas as plantas. Sven chamava Vinícius para acompanhá-lo, mas Vinícius nunca o fez: acostumado que estava à vida na cidade, sempre rodeado por colegas e amigos, o rapaz fazia pouca questão neste momento de acompanhar um senhor de quase o triplo de sua idade em algo que, ao fim e ao cabo, era sua rotina de trabalho. Sven, por outro lado, fazia absoluta questão dessa companhia. Isto foi amargando a relação entre os dois. Para piorar, Sven tinha orgulho de possuir uma sauna construída com suas próprias mãos, de madeira de bétulas derrubadas por ele mesmo, a que convidava Vinícius diariamente tão logo o sol se punha, coisa que aterrorizava Vinícius, que via nesse ato inocente avanços libidinosos do velho Sven. À medida que Vinícius se afastava, Sven ficava mais insistente, mantendo o olhar fixo no rapaz por longos minutos de silêncio constrangedor, tocando-lhe as mãos ao falar, até que uma tarde Vinícius teve um ataque de fúria e, sem avisar Sven, empacotou seus pertences e deixou a cabana do velho pouco após o crepúsculo, antes que ele tivesse a chance de convidá-lo uma última vez à sua adorada sauna. Foi aí que Vinícius, sem lugar para passar a noite, chegou a Gällivare, ao Stjärnljus, a Maja.

Era natural que os dois únicos jovens naquela lanchonete entabulassem uma conversa. Maja bebia uma cerveja sozinha quando Vinícius chegou e pediu um sanduíche e um refrigerante. Ela sorriu para o rapaz, acenou e, olhando sua mochila, perguntou “Where are you from?”. Depois disso, conversaram. Maja, que tinha vivido sua existência inteira naquela cidadezinha, com ocasionais idas a Kiruna ou, mais raramente, a Estocolmo e Gotemburgo, não pode deixar de sentir uma ponta de curiosidade por alguém que, vindo de um país tão distante, percorria agora seu continente, seu país. Ele personificava um tipo de liberdade, de conhecimento de mundo que ela, presa naquele vilarejo, nunca poderia alcançar. E, ao mesmo tempo que Maja sentia curiosidade por Vinícius, Vinícius sentia uma tola admiração por Maja, que era europeia, de um país rico, de uma sociedade avançada e inclusiva. Os detalhes da conversa que se seguiu são, portanto, irrelevantes: de início ambos já se olhavam com deslumbramento mútuo, e naquela noite, pelas ruas vazias, Maja guiou Vinícius ao seu apartamento, onde fizeram amor e conversaram sobre todos os lugares que queriam visitar um dia.

Maja tinha os olhos claros, os cabelos bem escuros, a pele branca. Sua beleza era uma beleza de excessos, de contrastes. Vinícius nunca pensou que poderia dormir com uma mulher assim antes, e se apegou a ela como a um animal raro, majestoso, com um misto de antecipação e luxúria. Mas Maja, desde a primeira noite, havia deixado claro o seguinte: que ela tinha um namorado, um namorado de longa data na verdade, pois aquela cidadezinha com seus poucos habitantes admitia pouquíssimo espaço para erros, e que ela jamais começaria algo com Vinícius se não soubesse que, poucos dias adiante, ele iria embora para nunca mais voltar. Vinícius também não considerava a possibilidade de ficar naquela cidade nem de levar Maja consigo. Ele estava bem ciente de que sua atração por aquela mulher, não importa o quão violenta fosse, estava enraizada quase que unicamente no exotismo da situação e no exotismo da própria Maja.

No entanto, ambos se atiraram um ao outro com volúpia. Maja trabalhava em um mercadinho que fechava às 16:00 e, assim que terminava seu turno, encontrava Vinícius no Stjärnljus. Ali não faziam nada; não podiam se tocar, se aproximar demais, pois a cidade era muito pequena para isso. Por vezes saíam e caminhavam pelo parque, às vezes à beira do lago, e tão logo as ruas estivessem desertas o bastante ela lhe tomava a mão e o levava ao seu apartamento, onde passavam a noite juntos. O namorado de Maja, Arjen, estudava engenharia em Kiruna, a algumas horas de Gällivare, e só voltava para encontrar sua família e sua namorada aos fins de semana. Como Vinícius desembarcou em Gällivare numa terça-feira, os dois amantes teriam quatro noites inteiras para se conhecerem direito.

Em todas aquelas noites, Maja não contou a Vinícius quase nada sobre o namorado. Sempre que, por algum acaso, os amantes tangenciavam esse assunto, Maja fazia algum comentário que mudava os rumos da conversa ou simplesmente se calava e olhava para o vazio. Contudo, jamais pareceu ter a consciência pesada pelo que estava fazendo. Entregou-se a Vinícius como se não houvesse outro homem no mundo, e cada segundo que passavam juntos era de completa devoção.

À medida que a semana avançava, a relação entre Vinícius e Maja ficava mais íntima. Maja timidamente passou a expressar o desejo de cortar suas ligações com aquela cidadezinha aborrecida e seguir Vinícius pela Europa, em seu desterro, e talvez voltar com ele ao Brasil, ao Rio de Janeiro, ou quem sabe afixar-se a alguma nova cidade bem distante de Gällivare, longe de Arjen e de sua família. Vinícius, por sua vez, que se considerava desenraizado, encontrava-se numa posição em que estava particularmente suscetível a criar novas raízes nos lugares errados, por pura impulsividade. Assim, ambos consideraram seriamente ficarem juntos para além daquela semana. Lentamente pararam de falar sobre os lugares que Vinícius tinha visitado e começaram a sonhar sobre os lugares que ambos ainda iriam visitar, juntos, o que fariam lá, e mais importante, como tirariam Maja de Gällivare. Vinícius iria embora na sexta-feira e levaria Maja consigo, antes que qualquer um notasse.

Mas infelizmente os planos e os acontecimentos se sucedem a velocidades distintas, e sexta-feira chegou sem que se decidisse o que fazer. Vinícius e Maja se encontraram no Stjärnljus e, cabisbaixos, caminharam às margens do lago, conversando silenciosamente sobre si próprios, sobre seus sentimentos, repetindo os mesmos comentários e lugares-comuns como se em despedida de cada frase. Quando caiu a noite, Maja tomou Vinícius pelas mãos e o levou para seu apartamento. Naquela noite não fizeram amor. Ficaram nus e entrelaçados na cama, sem dizer palavra alguma, apenas esperando.

Aquele silêncio e aquela espera foram mais poderosos do que qualquer coisa que Vinícius jamais havia experimentado, e quando Maja, na manhã seguinte, pediu a ele que não fosse embora, que esperasse até segunda-feira, ele não pode recusar. Eram 6:30 de sábado e Arjen logo chegaria de Kiruna. Vinícius deixou o prédio de Maja e caminhou sozinho pelas ruas escuras até encontrar um albergue, onde fez o check-in e deixou suas coisas. Então saiu de novo à rua e dirigiu-se a uma cafeteria segurando seu guia de turismo. Mas não conseguia ler. Deixou o livro pousado sobre o colo e olhou ao redor, para cada homem que entrava, enquanto o dia clareava através dos vidros do café, perguntando-se “Qual deles será Arjen?”. Sentia uma imensa expectativa. Passados apenas alguns minutos, sentiu-se cansado. Não havia dormido naquela noite com Maja. Pior: para evitar encontros desagradáveis, deveria criar uma nova rotina naquela cidade, um novo circuito que evitasse o parque, o lago, todos os lugares pelos quais ele e Maja haviam caminhado juntos, o que seria impossível. Decidiu-se por voltar ao albergue, deitar em seu beliche, olhar para cima, dormir.

Foi acordado de tarde por uma mensagem de Maja dizendo que sentia sua falta. Aquilo lhe deu forças. Se ela precisava tanto dele quanto ele dela, se ela sentia tanto a sua falta quanto ele a dela, não havia por que se esconder naquele albergue. Vinícius saiu para caminhar, foi até a estação de trem, viu os horários das partidas para Estocolmo, e perambulou. Seu coração palpitava de apreensão. Temia esbarrar com Maja e Arjen de mãos dadas, fazendo o passeio que ele e ela puderam fazer apenas à distância. Mas ansiava por aquilo também, desejando vê-la. Mas não os encontrou, e quando a noite caiu um pensamento tenebroso brotou em sua mente: é claro que não vou encontrá-los na rua, pensou Vinícius, eles estão juntos no apartamento dela. Sentiu-se péssimo novamente, como naquela manhã. Resolveu tomar seu primeiro porre em Gällivare. Não é nada econômico se embebedar na Suécia, mas daquela vez valeria cada centavo. Tomou gole após gole de brännvin no mesmo Stjärnljus onde havia conhecido Maja, agora que não tinha mais medo de encontrá-la por ali. Então, no auge de seu estupor alcoólico, escreveu-lhe uma mensagem: “I miss you terribly. Please, I need to meet you”. E desmaiou para dentro de um sono profundo e escuro como a morte.

Acordou na manhã seguinte abatido e resignado. Resolveu mandar o primeiro e-mail para sua família em vários dias e leu atentamente seu guia de turismo tentando projetar seus próximos passos. Iria para Estocolmo, de onde talvez partisse para a Noruega ou para a Finlândia. Seu futuro continuava aberto. Foi com grande surpresa então que recebeu uma mensagem de Maja por volta da hora do almoço dizendo “Arjen went back to Kiruna ahead of time. Meet me tonight at Stjärnljus”. Isso mudaria as coisas. Aquele final de semana havia sido uma tortura, mas uma tortura que durou apenas o sábado e parte do domingo. Honestamente, Vinícius não tinha muitas esperanças de que poderia construir uma relação bem sucedida com Maja. Ele sentia que o peso dos obstáculos a serem vencidos — Arjen, Gällivare, sua própria sensação de independência que ele havia lutado bastante para conseguir e que não estava mais tão certo de querer abandonar — era grande demais. Mas não abriria mão de ver Maja mais uma vez, de tê-la em seus braços novamente e, se possível, de passar mais uma noite em seu apartamento. Assim, após mais algumas horas de apreensão, lendo e matando o tempo, Vinícius se aprumou o mais que um mochileiro pode se aprumar e rumou ao Stjärnljus uma última vez.

Lá encontrou Maja, que lhe pareceu mais deslumbrante do que nunca. Todo o final de semana culminaria naquele momento. Aquela mistura de ansiedade, raiva, angústia, melancolia, saudade, tudo resultava em um violento desejo que lhe empurrava com força em direção a Maja. Naquele instante, descartando toda a cautela de sempre, Vinícius apertou Maja contra os braços e beijou-lhe a boca com voracidade. E ela lhe respondeu, ainda entregue, ainda apaixonada. Então veio o primeiro impacto. Uma dor intensa, agressiva atingiu Vinícius em sua bochecha direita. Seu rosto adormeceu imediatamente, mas ele, do chão, podia ver, acima de si, um verdadeiro viking a lhe chutar o peito, as costas, a cara, gritando-lhe em sueco as coisas mais horríveis que podia imaginar. Evidentemente, aquele era Arjen. Maja afastara-se e observava a cena, impassível, sem qualquer sinal de surpresa, o olhar vítreo pousado ora no namorado, ora no amante, sem dizer palavra nem tentar impedir os acontecimentos. Vinícius apanhou que nem um animal: a surra não tinha fim. Parecia que ele ia morrer. Finalmente, Arjen parou um segundo para respirar, e Vinícius escapuliu feito um rato, rastejando pelo chão, sob olhar admirado dos três ou quatro demais frequentadores do Stjärnljus. Ele mancou de volta ao seu albergue, pegou suas coisas e tomou o primeiro trem que partia para Estocolmo.

Sentado em seu vagão, apalpando o próprio rosto, verificando a extensão dos machucados, Vinícius gemia baixinho e pensava no que havia acontecido lá atrás. Será que havia sido imprudente em mandar uma mensagem claramente apaixonada para Maja que, afinal, sabidamente estava com Arjen em seu apartamento no sábado à noite? É bem provável que sim. Imaginava a discussão que teria se seguido à mensagem: Arjen obrigou a pobre garota a marcar um encontro/cilada para encurralar Vinícius, e ela não pode fazer outra coisa que não concordar. Sua vida inteira havia se passado naquele vilarejo. De que lado ela ficaria? Com que autoridade ele achava que poderia interferir na vida daquela garota?

Ou talvez Arjen nunca tenha visto aquela mensagem e Maja armou para ele de vontade própria. O que Maja via em Vinícius nunca foi nada além do exótico, do diferente que ele podia trazer para sua vida. Ela poderia agarrar isso e ficar com Vinícius, ou poderia viver um fugaz romance com aquele estrangeiro e esfregar na cara de Arjen. Aquilo seria exótico. Mais exótico ainda seria ver os dois rivais se encontrarem e acertarem suas diferenças na mesma birosca em que o romance começou. Acaso não teria Maja se interposto entre Vinícius e Arjen caso não estivesse satisfeita com o rumo que os acontecimentos tomaram? E ele não saberia, em seu âmago, que ela estava trêmula de orgulho de Arjen o tempo todo em que ele estava no chão apanhando? De um instante para o outro Maja havia virado o centro das atenções de Gällivare inteira, para o bem ou para o mal. No dia seguinte todos estariam falando daquela garota de atrativos tão incomuns que teriam posto dois homens em pé de guerra por seu amor. E ele havia perdido, claro, o que na verdade era o melhor resultado possível.

Vinícius passou seis dias em Gällivare, tempo curto demais para se tirar conclusões acerca da cidade, de seus habitantes, de Maja, de Arjen. Ao fim desses seis dias, tudo que lhe restaria, anos depois de visitar a Suécia, seria a impressão de que algo muito curioso tinha acontecido ali. Algo que lhe havia marcado, embora ele não soubesse bem dizer como.

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