Estou caindo. Que bizarro, estou consciente de que estou caindo. Geralmente não dá tempo nem pra pensar nisso. Geralmente é susto e chão. Dor. Mas enfim, parece que estou conseguindo pensar a respeito da minha queda. Aliás, eis o que eu acho que nos torna diferente de qualquer outro ser na face da terra. Temos uma forte consciência do que acontece, do que somos e onde estamos. Talvez outros seres também a tenham, nós só não sabemos disso. Mas eu queria dizer que tudo muda na nossa existência quando colocamos o fator consciência. Consciência não no sentido espiritual mas no sentido de estar ciente mesmo. Acredito que existam níveis de conscientização e quanto mais expandimos nossa consciência, melhor proveito damos à nossa existência. Por exemplo, existe o nível mais básico de existir. Comer, dormir, reproduzir, morrer. Sobreviver. Então muita gente vive só nessa base. A consciência dela não vai além do imediatismo do próprio umbigo. E existe o nível mais avançado, quando o ser começa a despertar sua consciência perante à todo sistema em que vive. Sistema tanto biológico quanto social. Ela começa a entender que seus atos vão além e que sua existência pode ser muito mais do que comer, dormir e reproduzir. É um caminho sem volta. Existe também a consciência espacial. Logo que nascemos o nosso universo é muito restrito. É nosso quarto, nossa casa. Depois, quando criança, nosso universo é nossa rua, nosso bairro. Ir pro bairro vizinho já é uma grande aventura. Ou ir para o centro da cidade. Depois, já na fase da adolescência, vamos conhecendo outras cidades, as que ficam mais perto primeiro e depois começamos a caminhar pelas mais distantes. Começamos a frequentar Universidades e conhecer as metrópoles. Logo surgem intercâmbios ou oportunidades de viajar pra fora. Conhecer outros países. Pois aí nossa consciência espacial se torna global. Nosso universo é o mundo. E nesse processo você vai conhecendo vários tipos de pessoas. Várias realidades. E dessa maneira você aprende o quanto tudo é grandioso e diferente mas ao mesmo tempo pequeno, frágil e igual a você. Isso, claro, não rola só por deslocamento físico. Podemos contar com livros, filmes, quadrinhos, internet, música, seriados, teatro, dança, enfim, mil formas de arte. Todas podem transmitir essa infinidade que pode ser o universo particular de cada um. É por isso que acredito ser tão importante obras que demonstram essa diversidade. Conhecer terras novas é um fator importantíssimo pra todo ser humano. Saber como é a vida de alguém que cresceu no Irã, no Japão… ou a vida de um chinês nos Estados Unidos… Saber das dores de quem vive na pele os problemas que a sociedade têm com os diferentes gêneros, classes sociais, cor de pele, ideologias. Conheer as dores e as alegrias do outro. Tudo isso é importante para que nossa convivência seja cada vez mais respeitável. Nos conscientizar de que nosso umbigo é apenas o começo de um infinito. E não o fim.