Coisas do Cotidiano
Ou As Crônicas do Dia a Dia.
Se eu fizer uma lista com as coisas que odeio, com certeza fila estará nessa lista. Não sei se alguém gosta de pegar fila, mas às vezes tenho a sensação que brasileiro não pode ver uma fila e já entra. Mesmo sem saber para que ela serve. Organizar fila é um outro problema grave. Se não colocar aquelas cordinhas a fila parece uma estrada de serra. Coisa impressionante.
Mas, se você vai à algum lugar e sabe que lá pode ter uma fila tem que ir preparado para enfrentá-la. Ela não possui lógica. Pode que vá rápido, pode ser que demore uma eternidade. E quando a fila ao seu lado anda mais rápido que a sua? Vontade de morrer, ou matar, não?
Hoje fui à Lotérica, não costumo fazer isso, mas hoje foi inevitável. Peguei a do meio, já que a da direita era preferencial e da esquerda era para jogos. Até que estava tranquilo, não demorava muito, estava com meus fones ouvindo um podcast para evitar perguntas sobre o clima, a lentidão da moça do caixa ou da política nacional.
Quase chegando minha vez eu desliguei os fones, mas não os tirei dos ouvidos. Ahá, tática!
No caixa da esquerda um homem pagava suas contas e tirava dúvidas com a atendente. Ao meu lado, na respectiva fila desse caixa, um homem completamente impaciente. Buffava, assoprava, batia naquela peça que segura a corda que divide as filas, reclamava que o homem demorava. Totalmente impaciente.
Logo à minha frente, uma senhora negra, com seus cabelos todos trançados. Acredito que ela poderia bem ter pego a fila preferencial. Mas ela não o fez. Ao meu lado direito, a fila preferencial com uma mulher grávida pronta para ser atendida. Então chega uma senhora, cabelos brancos presos em um rabo de cavalo comprido, saia até os joelhos, e a bolsa pendurada no ombro.
Ela ouve algo que o homem diz lá no primeiro caixa e grita do seu local, na terceira fila:
— Mas agora existe uma lei que tem que receber o boleto vencido! É sim… Tem que receber.
O homem que estava no caixa parece não ter gostado da intromissão, ela ao perceber fala com a senhora à minha frente em alto e bom som:
— Ah, mas ele não viu quem sou eu. Ele sabe quem eu sou, da minha família, ele é daquela loja de “não sei o que”. Ele sabe. Só não lembra.
Enquanto isso, o homem ao meu lado ainda mais impaciente.
Nisso, essa senhora e a que está à minha frente começam a conversar, e o assunto chega ao tema “Política”. Uma começa a falar com a outra sobre os candidatos, sobre como está difícil, etc. Até que senhora que está à minha frente fala :
— Mas tem aquele lá também que quer ‘dar’ armas para o povo! Veja, eu com uma arma! Não seria capaz de matar ninguém, capaz de eu morrer.
— É verdade, o (aquele que o nome não deve ser dito)!, diz a senhora de cabelos brancos. — Ele quer armar todo mundo… Mas eu ouvi ele dizendo que era para matar os negros (!), mandar todo mundo embora, os haitianos e quem entrou no país sem permissão!
— Ah, ouvi algo assim. Responde a senhora negra.
— Mas ele nem brasileiro (!!) é — fala a senhora de cabelos brancos — tinha que se candidatar lá no país dele, não aqui!
Nesse tempo a senhora de cabelos brancos é chamada. Segundos depois o homem sai do caixa, e vai até a senhora de cabelos brancos e pede perdão pelo esquecimento. Como se numa obrigação de dar satisfação para ela e não sair como um mal educado. O homem impaciente é chamado e não demora mais que alguns poucos minutos.
Chega a minha vez, então tiro os fones desligados, guardo-os e sou atendido. Então não tem como mais prestar atenção na fila.
Mesmo eu não gostando da fila ela é divertida. É um local onde você ouve algumas barbaridades e músicas ruins. Sabe que a pessoa vai pedir pizza pra janta ou que a Mariana vai pra casa da Cláuda após o trabalho e vai encontrar o pessoal para um “Happy Hour”. É inevitável ouvir essas coisas. Mas, claro, que tem alguns absurdos e ignorâncias, que dá vontade de intrometer na conversa.
Mas melhor não fazer.
E por falar em ignorância, há algumas coisas que tente a explicar o momento do nosso país.
Mais tarde, precisei ir ao banco. Nessa agência que fui não tem estacionamento, somente algumas vagas na frente e na lateral, já que a agência fica numa esquina. A rua principal é uma avenida de mão dupla, e de um lado não tem muitas vagas. Do outro lado é proibido estacionar.
Passei na frente e não tinha vaga, como a rua lateral ao banco é contramão, desenbocando na avenida principal, precisei dar a volta no quarteirão para procurar vaga. E foi o que fiz.
Chegando próximo à agencia, avistei uma vaga. — Que legal!
Mas, no mesmo instante, um exímio motorista, e uma pessoa que realmente pensa no seu próximo, entrou na contramão e numa manobra rápida (pois não dava para entrar de primeira) pegou essa vaga que eu estava de olho.
Ao contrário da fila, isso poderia bem pegar o pódium da minha lista de coisas que eu odeio. E o mais interessante é saber que isso é algo normal, rotineiro.
Eu poderia muito bem ter parado, ir até ao distinto cidadão, que deve ser um dos que preza pela tradicional família brasileira, e dizer que ele fez algo errado, que não poderia ter feito aquela manobra e que eu tinha dado a volta no quarteirão para pegar aquela vaga.
Poderia.
Mas não fui.
Vai que ele não é uma pessoa muito “amigável”, ou, vai que estamos na situação que a senhora disse na fila e cada cidadão ‘ganha’ uma arma e vai que ele não está em um bom dia. Vai que…
São situações como essas que traçamos um paralelo com nosso país, ou pelo menos eu traço, não que seja regra. Claro. Mas dá para ver como as pessoas andam desinformadas, ou informadas por Whatsapp, e a “Lei do Gerson” ainda prevalece e segue cada vez mais forte.
É muito difícil de aceitar a fala de candidatos que dizem que vão mudar isso ou aquilo, quando se trata de um problema intrínseco na sociedade. Se há uma maneira de mudar algo no futuro é investir nos mais novos.
Lembra quando entrou a em vigor a lei do cinto de segurança? Ainda há quem se recuse, mas a maioria das crianças sabem que é preciso usar, e muitas chegam a avisar ou até brigar com os pais e parentes que não usam.
Seria o mesmo. O investimento, o foco, teria que ser nas crianças nos mais novos. Mas ai entra um outro problema:
Quem quer uma sociedade educada e culta?
É muito melhor gastar milhões de reais em lavagem de carros, pó de café do que investir em educação. É muito melhor gastar milhões em reformas estratosféricas do que investir milhares em museus. Só ver os casos do Museu Nacional e do Museu do Ipiranga.
Num país onde um professor é recebido à bala, e um corrupto recebido com polpa e circunstância quem realmente quer que algo mude?
Infelizmente a tendência é das pessoas cada vez mais desinformadas e a Lei do Gerson sendo usada à revelia.
Espero um dia voltar aqui e escrever que estamos progredindo, que as coisas estão entrando nos eixos e que o país pode, e vai, decolar. Mas sinto que não será possível.
